O descanso mais doce que o sono

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English: A Rest Sweeter Than Sleep

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Por Scott Hubbard Sobre Santificação e Crescimento

Tradução por Daniele Weidle

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Oração noturna para uma consciência perturbada

Às vezes, quando me deito para dormir, uma inquietação paira sobre a minha cama. Uma vaga sensação de inquietação. Uma sensação incômoda de alguma tensão não resolvida. Alguma porta na alma balançando em suas dobradiças. A agitação de uma mente inquieta.

Ao reviver o dia, percebo o motivo. Orações feitas às pressas ou ignoradas. Uma oportunidade de evangelização perdida. Ressentimentos alimentados. Palavras de autopromoção foram se infiltrando nas conversas. O “pedido de oração” que provavelmente era apenas fofoca. Tempo precioso desperdiçado. Incentivos não pensados e não ditos. Como diz o antigo livro de orações: “deixei de fazer o que deveria ter feito e fiz o que não devia ter feito.”

Essa foi uma resposta adequada ao seu Deus? Eu me perguntei. Isso era “viver de maneira digna” Dele? Às vezes, adormeço com essas perguntas sem resposta, inquieto e cheio de remorso, mas cansado o suficiente para sucumbir ao sono.

Mas nem sempre. Há alguns anos atrás, encontrei uma ajuda inesperada no poema de um pastor falecido há muito tempo, que sentia a mesma culpa, mas encontrou em Jesus um descanso muito mais doce do que o sono.

Tabela de conteúdo

“Even-Song”

O poema “Even-Song” (Vésperas), de George Herbert (1593-1633), encerra uma série de três poemas de sua coletânea The Temple, que começa com “Mattens” e continua com “Sinne (II)”. Os títulos “Mattens” e “Even-Song” referem-se a orações matinais e noturnas na igreja anglicana. E “Sinne”, bem, esse resume bem o que costuma acontecer entre as orações da manhã e da noite.

“Even-Song” não é uma oração para todas as noites. Herbert não parte do princípio de que sempre terminamos o dia cheios de remorso, com o pecado tendo destruído as resoluções do dia. Mas ele parte do princípio de que, às vezes, isso acontece e que, muitas vezes, até mesmo os cristãos mais fiéis se ajoelham ao lado de suas camas, desejando profundamente ter agido de uma maneira mais digna de seu Deus.

O que dizemos no final desses dias, quando sentimos o abismo entre a bondade de Deus e nossa resposta indigna? Mais de uma vez, “Even-Song” me acompanhou ao lado da cama, trazendo clareza e consolo à minha consciência conturbada. Tornou-se um fiel companheiro noturno.

À medida que a noite se aproxima

Bendito seja o Deus de amor,
Quem nos deu olhos, luz e força neste dia,
Tanto para trabalhar quanto para se divertir.
Mas muito mais bendito seja Deus no alto,

Quem me deu apenas a visão
O que Ele negou para si mesmo:
Pois quando Ele vê meus caminhos, eu morro:
Mas eu tenho o Filho Dele e Ele não tem nenhum.

Em “À medida que a noite se aproxima”, Herbert olha para trás, relembrando as dádivas matinais de Deus: “olhos, luz e força neste dia, / Tanto para trabalhar quanto para se divertir”. Nosso Pai, sendo o “Deus de amor” que é, abre os tesouros do seu coração desde o primeiro momento do dia. Como celebra Herbert em “Mattens”: “Não consigo abrir meus olhos, / Mas tu estás pronto para acolher, / Minha alma matinal e sacrifício”, “Teu é o dia”, diz o salmista (Salmo 74:16, NAA). E Herbert, rodeado pelas dádivas de Deus, sente isso.

Para pecadores como nós, porém, há um dom que se destaca acima de todos os outros. O Deus que nos dá “olhos e luz” para os trabalhos do dia também nos concede outro tipo de visão: “Que a si mesmo negou: / Pois quando Ele vê meus caminhos, eu morro”. Fazendo alusão ao Salmo 130:3, Herbert lembra que Deus, em Cristo, não “registra” nossas iniquidades, mesmo quando nós o fazemos; em certo sentido, Ele não vê os pecados que nós vemos.

E por quê? Porque “eu tenho o Filho Dele e Ele não tem nenhum”. Deus entregou Seu Filho na cruz e, ao mesmo tempo, entregou o sol que, de outra forma, brilharia sobre nossa culpa. Jesus enterrou nossos pecados nas trevas na sexta-feira santa e, no domingo de páscoa, eles não ressuscitaram com Ele. E então, na glória do evangelho, Deus não “lembra” mais os pecados do seu povo (Hebreus 8:12), Ele não os vê mais. Eles estão enterrados, escondidos, invisíveis, guardados para sempre na escuridão.

Mas eles nem sempre parecem enterrados, escondidos, invisíveis. E então, Herbert nos leva de volta à sua “mente conturbada”.

Mente conturbada

O que eu trouxe para casa
Em troca por esse Teu amor? Será que já saldei a dívida,
Que favor trouxe este dia?
Eu corri, mas tudo o que trouxe foi espuma.

Tua alimentação, cuidado e sacrifício
Acabam em bolhas, bolas de vento;
De vento para ti, a quem eu ofendi,
Mas bolas de fogo desordenadas para minha mente conturbada.

Como um bom pai, Deus nos recebe com benevolência todas as manhãs; sua “alimentação, cuidado e sacrifício” nos fazem iniciar o dia fortalecidos e renovados. Mas, com demasiada frequência, ao nos aproximarmos de casa à noite, remexemos nos bolsos, perguntando-nos como é que levamos tanta coisa e trouxemos tão pouco. “O que eu trouxe para casa?”, pergunta Herbert. “Eu corri, mas tudo o que trouxe foi espuma” ou, algumas linhas depois: “bolhas, bolas de vento”. Tolices sem importância.

Aproximar-se de Deus com as mãos vazias pode não incomodar aqueles que são apenas nominalmente religiosos, aos quais pouco importa se agradam a Deus ou não. Mas, para aqueles que experimentaram a bondade de Deus e viram na cruz o preço que foi pago, esse vento pode se tornar “bolas de fogo desordenadas para minha mente conturbada”. O sol se pôs sobre os arrependimentos do dia, sem tempo agora para remediá-los, deixando-nos com a alma ferida por espinhos. Um travesseiro de remorso. Uma consciência ardendo.

Em noites como estas, há a simples tentativa de dormir para esquecer a culpa. Outros buscam racionalizar. Outros, ainda, oram, mas não de forma a apagar as chamas em suas mentes. O que Herbert faz?

Fechando nossos olhos cansados

E, no entanto, Tu continuas,
E agora a escuridão envolve teus olhos cansados,
Dizendo ao homem: ”já basta”:
Descanse agora: “teu trabalho está concluído”.

Assim, na Tua caixa de ébano
Tu nos cercas, até o dia
Em que seremos redimidos,
E dar novas engrenagens aos nossos relógios desajustados.

Herbert, com um fogo intenso consumindo sua mente atribulada, volta-se para Deus e diz: “E, no entanto, Tu continuas”. O “Deus de amor” ainda tem mais amor reservado, mais graça para oferecer. Ele começou o dia dando-nos “olhos, e agora, à medida que a noite envolve nossas almas sobrecarregadas, Ele “cobre os olhos cansados com a escuridão”. E não apenas com o sono: Deus, em sua misericórdia, faz com que não vejamos nossos pecados, assim como Ele, em Cristo, já “fechou” os Seus.

Enquanto Deus fecha as pálpebras da alma, fazendo com que ela não veja os pecados confessados do dia, Herbert o imagina “dizendo ao homem: já basta / Descanse agora: teu trabalho está concluído”. Em resposta aos nossos arrependimentos de fim de dia, quando estamos exaustos, Deus não nos dá mais trabalho, mas descanso. Nosso trabalho, por mais insignificante que seja, pode ser realizado ao fim do dia porque a obra perfeita de redenção de Deus já está consumada (João 19:30; Hebreus 10:12-14). E nós, pela fé, “temos o Filho Dele”.

Assim, Deus nos “coloca” em “Tua caixa de ébano”, certamente uma referência a um caixão. Os escritores bíblicos viam o sono como uma imagem da morte cristã (João 11:11; 1 Tessalonicenses 4:14), e Herbert, explorando esse tema, trata a noite como um ensaio diário para o momento em que nosso caixão de ébano será feito de madeira e não de noite. Naquele último crepúsculo, alguns dos verdadeiros filhos de Deus, como o cristão em “O progresso do peregrino”, olharão para trás e perguntarão, com dor: “O que eu trouxe para casa / Em troca por esse Teu amor?”. Nossas noites conturbadas nos ensinam como responder a essa pergunta, preparando-nos para repousar em paz em nosso leito final, enquanto aguardamos que Deus feche nossos olhos, nos faça adormecer e nos guarde para o dia da ressurreição, no qual “seremos redimidos”, que nos ressuscitará sem pecado e inteiros, filhos da manhã eterna.

Até lá, viveremos como relógios antigos, “relógios desajustados” cujos ponteiros das horas e dos minutos começam o dia alinhados com Deus, mas muitas vezes vão se desviando lentamente. E todas as manhãs, Deus nos renova, por mais desorientados que estejamos depois do dia anterior e, mais uma vez, nos dá forças para seguir em frente.

O descanso mais profundo que o sono

Eu me pergunto: o que demonstra mais amor,
O dia ou a noite: eis a tempestade, eis o porto;
Aquele é o caminho, e este é o caramanchão;
Ou aquele o jardim, este o bosque.

Meu Deus, Tu és todo amor.
Nem um único minuto escapa ao teu coração,
Mas traz uma bênção do alto;
E nesse amor, mais do que na cama, eu descanso.

À medida que Deus nos conduz da manhã à noite, passamos de graça em graça, de misericórdia em misericórdia, de bondade em bondade. No final do poema, Herbert reflete sobre qual dos dois, o dia ou a noite, “demonstra mais amor”: a tempestade que nos leva pelas águas do dia, ou o porto que nos acolhe na costa da noite? A caminhada que nos conduz pelas tarefas do dia, ou o caramanchão que nos acolhe para o descanso noturno? O jardim da força durante o dia ou o bosque do perdão à noite?

Não é possível responder essa pergunta. Em Cristo, Deus nos dá força para trabalhar para Ele e nos concede o perdão para descansarmos Nele. Ambos têm seu encanto particular, os filhos de Deus valorizam os dois. E assim, “nem um único minuto escapa ao teu coração, / mas traz uma bênção do alto”. Não há um único minuto do dia que não seja embelezado pelo amor de Deus, seja o amor do dia ou o amor da noite, o amor que fortalece ou o amor que perdoa.

Herbert encerra com: “e nesse amor, mais do que na cama, eu descanso”. Em Jesus, encontramos um descanso mais profundo do que o nosso descanso, um travesseiro sob o nosso travesseiro, o conforto da alma envolvendo o conforto do sono. Tal descanso e conforto dependem, em última análise, não do que oferecemos a Deus (embora ansiemos por lhe dar cada vez mais), mas do que Ele nos concedeu: “Seu Filho”. E assim, até mesmo a frustração e a sensação de futilidade que sentimos ao final do dia podem se tornar uma bênção, conduzindo-nos a um descanso mais profundo do que o sono pode proporcionar.