Quando as Angústias do Meu Coração Se Multiplicam
De Livros e Sermões BÃblicos
Por Jon Bloom Sobre Santificação e Crescimento
Tradução por Lorena Sales
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Tenho sentido, nesses dias, de forma muito intensa minha grande necessidade da sabedoria e da orientação de Deus. Esta tem sido uma fase da vida em que o Senhor, em sua sábia providência, se agradou em me conduzir a uma confluência de questões e acontecimentos diversos — difíceis, desconcertantes, confusos e, em alguns casos, profundamente dolorosos. Cada um deles excede minhas capacidades; em conjunto, tornam-se avassaladores.
Não é que eu realmente precise mais da sabedoria e da orientação do Senhor agora do que em outros momentos. É apenas que, quanto mais perturbadora, desconcertante e avassaladora uma situação se apresenta, mais desesperadamente sinto a minha necessidade dele. Sei, pela experiência passada e pelo testemunho repetido das Escrituras, que esse tipo de desespero é uma misericórdia. Mas a experiência emocional não parece uma misericórdia. Ela se mostra exigente, o que me impele a orar mais (parte dessa misericórdia).
E o que me encontro orando com regularidade nesta fase são trechos do Salmo 25. Na verdade, eu o memorizei para ter sempre essa oração comigo quando preciso dela (algo que qualquer pessoa pode fazer em poucas semanas, apenas seguindo uma rotina simples). Ele se tornou um dos meus salmos favoritos por causa da maneira como Davi suplica a Deus por sabedoria e orientação em um dos (muitos) momentos desesperadores de sua vida, quando “as angústias do [seu] coração se multiplicaram”. (Salmo 25:17, NVI)
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A Situação Desesperadora de Davi
Poucos de nós conseguimos nos identificar com o tipo de perigo mortal em que o Rei Davi se encontrava. Ser um rei no Oriente Médio, há três mil anos atrás, não era para os fracos de coração. Sempre havia inimigos traiçoeiros do lado de fora e traidores à espreita do lado de dentro, todos de olho em sua posição, prestígio e poder. Supostos amigos e inimigos conspiravam para enfraquecê-lo e destruí-lo.
A maioria dos reis lidaram com tais inimigos (assim como com suas famílias e amigos) com brutal falta de misericórdia. Mas não Davi. A começar pelo rei Saul, seu predecessor, que durante anos fez de tudo para assassiná-lo, Davi decidiu não se vingar de seus inimigos internos. Pois, se o fizesse, como poderia afirmar que sua confiança estava no poder de Deus, e não no seu próprio? Só podemos imaginar como isso deve ter encorajado seus inimigos, que não tinham esse tipo de escrúpulo espiritual. Decidir deixar que Deus cuidasse de seus inimigos exigiu grande fé e grande coragem.
Mas Davi nem sempre se sentia cheio de fé e coragem. Temos parte de seus registros de oração que mostram isso, e o Salmo 25 é um desses registros poéticos. Esse salmo é, de fato, uma verdadeira aula sobre como orar pedindo sabedoria e orientação para atravessar uma situação difícil, confusa e até perigosa. Ele começa descrevendo sua situação — mas ouça com atenção o que ele diz.
A ti, Senhor, elevo a minha alma.
Em ti confio, ó meu Deus.
Não deixes que eu seja humilhado,
nem que os meus inimigos triunfem sobre mim!
Nenhum dos que esperam em ti ficará decepcionado;
decepcionados ficarão aqueles que, sem motivo, agem traiçoeiramente. (Salmo 25:1-3, NVI)
O que Davi está pedindo? É claro que ele está pedindo a Deus para proteger sua vida, mas ele também está pedindo mais — algo mais profundo do que isso. Quando ele ora: "Não deixes que eu seja humilhado" e declara, pela fé, que "nenhum dos que esperam em ti ficará decepcionado", ele está pedindo a Deus que proteja a glória do seu nome ao protegê-lo. Pois, se Davi, mesmo confiando em Deus, for derrubado por um tirano traiçoeiro, quem então dirá: “Em ti confio, ó meu Deus"?
Talvez não consigamos nos identificar com o motivo específico pelo qual Davi se sentia desesperado, mas certamente conseguimos nos identificar com o desespero. E, quando oramos em nossas situações desesperadoras, o que estamos pedindo a Deus? Existe um motivo mais profundo do que apenas o resultado que desejamos?
O Que Davi Precisa
Então Davi suplica a Deus pelo que ele precisa. Mas lembre-se do contexto: Davi está ciente de que sua vida está em jogo.
Mostra-me, Senhor, os teus caminhos,
ensina-me as tuas veredas;
guia-me com a tua verdade e ensina-me,
pois tu és Deus, meu Salvador,
e a minha esperança está em ti o tempo todo.
Lembra-te, Senhor, da tua compaixão e da tua misericórdia,
que tens mostrado desde a antiguidade.
Não te lembres dos pecados e transgressões da minha juventude;
conforme a tua misericórdia, lembra-te de mim,
pois tu, Senhor, és bom. (Salmo 25:4-7, NVI)
O que falta nestas linhas é qualquer menção a seus inimigos. Neste salmo, Davi não está obcecado com a fonte do seu problema; ele está fixado na Fonte da sua solução. Assim, ele faz dois pedidos.
Primeiro, ele pede a Deus orientação. Davi, assim como nós em nossas situações perturbadoras, desconcertantes e até avassaladoras, não sabe ao certo o que fazer. Sem dúvida, havia camadas de complexidade envolvidas, assim como as que enfrentamos. Havia coisas cruciais em jogo na maneira como ele lidaria com o que estava diante dele, assim como há naquilo que enfrentamos. O que ele queria não era vingança contra seus inimigos. Ele queria que Deus revelasse os seus caminhos e o conduzisse na sua verdade, pois ele era o Deus da salvação de Davi. (Você percebe nessa oração uma antecipação presciente de João 14:6?)
Segundo, Davi pede a Deus perdão. Davi, como nós, não se vê inocente diante de Deus. Ele, como nós, é um pecador necessitado da misericórdia de Deus. Ele, como nós, precisa se apoiar no amor constante e na bondade de Deus. Então, ele se humilha e pede que Deus não se lembre de seus pecados.
Ao orarmos em nossas situações desesperadoras, o que nossos pedidos revelam sobre aquilo em que estamos fixados? Estamos mais consumidos por nossos problemas do que pela presença e pelas promessas de Deus?
O Que Davi Acredita
Então Davi declara a Deus aquilo que acredita a seu respeito. Não apenas o que Davi declara é importante aqui, mas também o lugar em que ele coloca essa declaração na ordem de sua oração (sobre isso falaremos em breve).
Bom e justo é o Senhor;
por isso mostra o caminho aos pecadores.
Conduz os humildes na justiça
e lhes ensina o seu caminho.
Todos os caminhos do Senhor são amor e fidelidade
para com os que cumprem os preceitos da sua aliança.
Por amor do teu nome, Senhor,
perdoa o meu pecado, que é tão grande!
Quem é o homem que teme o Senhor?
Ele o instruirá no caminho que deve seguir.
Viverá em prosperidade,
e os seus descendentes herdarão a terra.
O Senhor confia os seus segredos aos que o temem,
e os leva a conhecer a sua aliança.
Os meus olhos estão sempre voltados para o Senhor,
pois ele arrancará meus pés da rede. (Salmo 25:8-15, NVI)
O que Davi está fazendo aqui? Ele está confessando sua fé. Deus é bom para com os pecadores que se humilham e olham para ele em busca de orientação (e, para reforçar, ele pede perdão mais uma vez). Deus instruirá tal pessoa “no caminho que deve seguir”, pois revela o seu conselho íntimo (um sentido mais pleno da palavra hebraica sôd, traduzida aqui como “amizade”) àqueles que o temem e confiam nele para guardar a sua aliança. E Davi está decidido a manter os olhos no Senhor, que fará conforme prometeu.
Mas há uma frase ampla e impressionante que quero destacar:
Todos os caminhos do Senhor são amor e fidelidade
para com os que cumprem os preceitos da sua aliança. (Salmo 25:10, NVI)
Lembre-se da situação em que Davi se encontrava e, então, reflita sobre essa frase: "todos os caminhos.” Todos eles. Davi não ignorava os grandes males e tragédias da vida. Ele estava mais consciente disso do que a maioria de nós, dado o tempo brutal em que viveu. Ainda assim, Davi confiava em seu Pastor para guiá-lo “nas veredas da justiça por amor do seu nome” — inclusive aquelas que conduzem “por um vale de trevas e morte”, onde o mal espreita (Salmo 23:3–4, NVI).
Ao orarmos em nossas situações desesperadoras, cremos que todas as suas veredas são amor constante e fidelidade para com aqueles que o temem?
O Que Davi Sente
Aqui é onde a ordem da oração de Davi se mostra reveladora. Depois de descrever a Deus a sua situação desesperadora, suplicar a Deus pelo que mais precisava e confessar a Deus aquilo em que cria a seu respeito, Davi diz a Deus como se sente.
Volta-te para mim e tem misericórdia de mim,
pois estou só e aflito.
As angústias do meu coração se multiplicaram;
liberta-me da minha aflição.
Olha para a minha tribulação e o meu sofrimento,
e perdoa todos os meus pecados.
Vê como aumentaram os meus inimigos
e com que fúria me odeiam!
Guarda a minha vida e livra-me!
Não me deixes decepcionado, pois eu me refugio em ti.
Que a integridade e a retidão me protejam,
porque a minha esperança está em ti.
Ó Deus, liberta Israel
de todas as suas aflições! (Salmo 25:16-22, NVI)
Este é Davi — um guerreiro renomado, chefe entre os valentes de Israel, matador de Golias e vencedor sobre suas “dezenas de milhares” (1 Samuel 18:7, NVI) — derramando o seu coração como um filho de Deus temeroso e cansado diante de seu Pai celestial. É um clamor terno e comovente por ajuda. Homens e mulheres verdadeiramente valentes sabem que não são mais do que filhos humildes diante de Deus e não têm medo de falar abertamente como filhos humildes de Deus (lembre-se: este salmo foi escrito para o culto público).
Creio que a ordem da oração de Davi é significativa: neste salmo, Davi declara o que crê a respeito de Deus, com base no seu conhecimento da palavra de Deus e na sua experiência pessoal da fidelidade de Deus, antes de dizer a Deus como se sente.
Consciente disso ou não, penso que Davi, o guerreiro experiente, sabia que seus sentimentos de medo eram emoções potencialmente perigosas. Eles não eram errados, já que a ameaça que enfrentava era real; não deveriam ser reprimidos, mas expressos. No entanto, essas emoções eram poderosas e podiam sugar sua coragem — algo fatal em batalha, inclusive nas batalhas espirituais. Assim, Davi encorajou a sua alma ao se lembrar e ao reafirmar aquilo em que cria a respeito de Deus e, então, elevou suas emoções às suas convicções — ou colocou suas emoções sob o governo de suas convicções.
Ao orarmos em nossas situações desesperadoras, confessamos regularmente aquilo em que cremos a respeito de Deus antes de passar a falar sobre como tudo isso nos faz sentir? Estamos encorajando a nossa alma na fé e colocando nossas emoções sob o governo daquilo que sabemos ser verdadeiro a respeito de Deus?
Desperte a Coragem, Lance as Ansiedades
Davi nos mostra como enxergar e orar a respeito daquilo que consideramos difícil, confuso, assustador e perturbador. Davi levou a Deus as angústias multiplicadas do seu coração, pediu a ele o que precisava, despertou sua coragem ao confessar sua fé e, então, lançou as suas preocupações (ansiedades) sobre o Deus que cuidava dele (1 Pedro 5:7).
Davi não repete esse padrão em todos os seus salmos. Portanto, não o transformaremos em uma fórmula de oração. No entanto, muitas vezes é necessário despertar a nossa fé antes de lançarmos nossas preocupações sobre Deus, para que realmente consigamos lançá-las e não continuemos fixados nelas.
Davi é um bom mentor para nós. Ele tinha experiência em combater o medo e a incredulidade diante de situações e questões avassaladoras. E, assim como Deus fez com Davi, ele instruirá pecadores como nós no caminho que devemos escolher, à medida que o tememos e confiamos nele. E, ao fazermos isso, nós também descobriremos que “todos os caminhos do Senhor são amor e fidelidade.”
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