Falando de Forma Redentora

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English: Speaking Redemptively

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Por Paul Tripp Sobre Linguagem
Uma Parte da série Journal of Biblical Counseling

Tradução por Gertrudes Mendonca


Eu estava na escola secundária a trabalhar no meu primeiro emprego, quando tive que enfrentar um grande problema fora de casa pela primeira vez. Os colegas estavam a roubar e a danificar a propriedade. Eu sabia quem era o culpado, mas o chefe não sabia. Eu não queria participar no que acontecia, nem queria ser acusado por algo que não tinha feito. Eu sabia que precisava de falar com o meu chefe e possivelmente com os meus colegas, mas tinha medo. Então consegui coragem para falar com o meu pai sobre o que estava a acontecer.

Ele concordou que eu precisava de falar com as pessoas envolvidas e depois disse-me, “Tem cuidado, filho, escolhe cuidadosamente as tuas palavras”. Isto era uma forma correcta de resumir tudo o que significa comunicar com um objectivo e auto-controlo.

Falar de forma redentora consiste em escolher cuidadosamente as nossas palavras. Não se trata apenas das palavras que dizemos mas também das palavras que decidimos não dizer. Falar de forma redentora trata de estarmos preparados para dizermos as coisas certas no momento certo e com auto-controlo. Falar de forma redentora consiste em recusar falar de forma apaixonada e desejo pessoal mas, em vez disso, de comunicarmos os objectivos que Deus tem em vista. Consiste em exercitar a fé necessária para ser parte do que Deus está a fazer nesse momento.

Quando Palavras Destroem

Sam e Belinda eram pessoas com conhecimentos, no entanto nunca tinham conseguido resolver os problemas do seu próprio relacionamento. Quando começámos a encontrarmo-nos, as lutas no seu casamento eram sérias. Sam tinha-se mudado durante duas semanas a um mês por três vezes nos dois anos anteriores. Belinda tinha saído uma vez para umas férias “alargadas” para casa dos seus pais. Aqui estava um casal cristão, casado há vinte anos, com um sólido entendimento das Escrituras e muito discernimento mútuo e no entanto não conseguiam resolver os seus próprios problemas.

Na primeira vez que nos encontrámos, você não conseguia cortar a tensão existente com uma faca. Seria precisa uma moto-serra! Sam estava tão zangado que, logo depois de eu ter rezado, levantou-se e disse, “Não sei por que ESTOU aqui! Eu sei exactamente o que está errado na minha relação. Já disse a Belinda cem vezes. Ela recusa-se a ouvir e faz papel de vítima. Não tenho interesse em me sentar aqui e rever todas as coisas horríveis que aconteceram entre nós durante os últimos vinte anos! Não consigo fazer isso!” E com estas palavras, ele partiu. Desculpei-me a Belinda e acompanhei Sam até ao seu carro, tentando convencê-lo a regressar.

Havia muito de verdadeiro naquilo que Sam tinha dito. Ele tinha analisado muito os problemas do seu casamento. Ele tinha dito a Belinda muitas coisas que ela não ouvia. Belinda tinha feito papel de vítima nesses momentos de confrontação. Sam tinha sido forçado repetidamente a rever cenas horríveis que tinham acontecido entre eles. No entanto, com toda a análise e com toda a conversa, Sam tinha sido apenas um instrumento de mudança na vida de Belinda. Na verdade, a conversa de Sam apenas fazia com que a esposa se tornasse numa vítima cada vez mais amarga. Com todo o seu discernimento, Sam nunca tinha participado naquilo que o Senhor procurava fazer na vida de Belinda. Em vez disso, ele enfrentava o trabalho do Senhor e dava ao demónio grandes oportunidades de forma consistente.

Tanto Belinda como Sam tinham levado para o seu casamento ideias que contribuíram para os seus problemas. O pai de Belinda era um homem brutalmente legalístico e crítico. Belinda observava a sua mãe a ser verbalmente castigada noites seguidas à mesa de jantar quando o seu pai criticava a mãe pelo seu trabalho em casa, pela sua comida, pelo seu vocabulário, pelos seus livros e mesmo pela sua voz (“essa voz desagradável que você tem”). Houve muitas noites em que Belinda chorava até dormir ou pensava em formas de castigar o seu pai pela forma como ele tratava a sua mãe.

Quando começaram a namorar, Sam percebeu que Belinda mostrava tendência a ser muito sensível e isto por vezes irritava-o. Mas como havia muitas outras coisas que ele apreciava em Belinda, tentou ignorar esse aspecto. Ele não percebia que estava a casar com uma mulher que era amarga, auto-protectora, medrosa e determinada a fazer o que fosse preciso para se livrar do “inferno” que a sua mãe tinha vivenciado.

Pelo contrário, os pais de Sam, tinham um relacionamento maravilhoso. A sua mãe e pai exprimiam regularmente a sua apreciação mútua. Quando discutiam, não procuravam só o perdão um do outro, mas também o perdão dos filhos que tinham observado a discussão. Na família de Sam, o fracasso não era considerado o fim do mundo; em vez disso, você seria encorajado a reagir e a tentar de novo. Sam tinha sempre esperado que poderia ter um casamento como o dos seus pais. Ele sonhava com aqueles grandes dias da árvore de Natal, desta vez com ele na figura do pai. Ele casou com Belinda com este sonho em perspectiva.

Não foi por erro da soberania de Deus que Sam e Belinda se reuniram. Era objectivo da sabedoria redentora de Deus usar o seu relacionamento como sala de trabalho para o seu trabalho de santificação em curso. No seu relacionamento, os corações seriam expostos e alterados. Este era o objectivo de Deus. Mas Sam não se casou tendo em vista o evangelho, os seus olhos estavam no seu sonho. Belinda também não se casou com o evangelho em vista; os seus olhos estavam nos seus medos. Por isso nenhum deles pensou ou falou de forma salvadora com o outro quando Sam começou a ver o seu sonho desfeito e Belinda começou a ver os seus medos concretizarem-se.

Na verdade, Sam sabia que Belinda parecia sempre ser capaz de ouvir críticas mesmo quando ele não estava presente. E Belinda sabia que Sam parecia sempre desapontado porque a sua família verdadeira não se parecia com a família dos seus sonhos. Mas apesar de todo o discernimento, as coisas entre eles foram piorando ao longo dos anos. A conversa que rodeava as suas dificuldades apenas acrescentava camadas de ofensas e complicações. Em vez de exigirem mudanças um ao outro, Sam e Belinda precisavam de saber o que significa falar de forma redentora perante o desapontamento, mágoa, fracasso e pecado – todas as experiências comuns num mundo fracassado.

Porque é que Palavras Destroem

Como é que nós compreendemos a incapacidade de Belinda e Sam para resolver os problemas no seu relacionamento? Qual é o caminho da mudança para eles? O que significa para eles e para nós, escolher as nossas palavras, falar de forma redentora?

Uma passagem em Galacianos exegeta o relacionamento de Sam e Belinda. Segue-se uma outra passagem que aponta a forma de mudar. Ambas as passagens definem o que significa escolher as nossas palavras de forma que possamos fazer parte daquilo que o Redentor está a fazer nas nossas vidas e nas vidas dos outros.

Vamos começar por observar o que estava errado com Belinda e Sam. A nossa passagem de diagnóstico é Galacianos 5: 13-15.

Vocês, meus irmãos, foram chamados para serem livres. Mas não usem a vossa liberdade para satisfazer a natureza pecadora; em vez disso, sirvam-se mutuamente no amor. Toda a lei está resumida num só mandamento: “Ama o teu próximo como a ti mesmo”. Se vocês continuarem a morder-se e a devorar-se mutuamente, tenham cuidado porque assim vocês irão destruir-se mutuamente.

As três partes desta passagem podem ajudar-nos a entender o que está errado no relacionamento de Sam e Belinda, particularmente na área da sua comunicação.

1. “Não utilizem a vossa liberdade para satisfazer a natureza pecadora; em vez disso, dediquem-se um ao outro em amor”.

Se você tivesse perguntado a Belinda e Sam se o seu relacionamento estava baseado na indulgência da natureza pecadora, eles teriam respondido enfaticamente que “não” – mas eles estariam enfaticamente errados. O seu relacionamento e a sua comunicação não eram modelados pela regra do amor. Eles tinham uma falha grave da postura servidora que é aconselhada nesta passagem.

Eles não perguntaram a Deus como poderiam encorajar os seus cônjuges e apoiar aquilo que Deus estava a fazer na vida do outro. Eles não pensaram sobre a forma como poderiam “espicaçar-se mutuamente para o amor e boas acções” (Heb. 10:24). Eles não procuraram caminhos de conforto, encorajamento, avisar ou ensinar o outro. Eles não perceberam a dificuldade como uma oportunidade para ministrar a graça de Deus. Eles não buscaram formas de ajudar o outro a carregar o seu peso. Eles não escolheram palavras que iriam encorajar a união, amor e cooperação mútua. Sam e Belinda esperavam ser servidos. Ele queria satisfazer o seu sonho. Ela queria isolar-se dos seus medos. Portanto, eles não procuraram formas de servir.

É aqui que esta passagem é particularmente útil porque nos diz que o oposto de servir é amor e não falta de amor e uma falta de serviço, mas uma satisfação activa da natureza pecadora! Ou eu vivo como servo do Senhor e aceito o Seu chamado para servir os que me rodeiam, ou eu vivo para gratificar as necessidades da natureza pecadora e espero que os outros satisfaçam também estas necessidades. Embora Belinda e Sam tenham inicialmente discordado, eles acabaram por entender que tinham entrado no seu relacionamento com desejos egoístas como principal finalidade.

Sam pretendia concretizar a sua meta da esposa e família perfeitas. Por causa disto, ele ficou imediatamente desapontado e zangado quando viu Belinda como um obstáculo a esta meta. Belinda foi para o casamento com a meta pessoal de auto-protecção. O seu relacionamento e comunicação como Sam eram dominados por um constante foco em si própria. (Como é que o mundo me trata?) Devido a esta meta auto-protectora, ela criticava tudo o que Sam dizia ou fazia e era sempre capaz de encontrar algo de insensível, crítico, descuidado ou “abusivo”. Depois, no seu desapontamento, ela atacava Sam verbalmente com violência e raiva.

Jaime 4:1,2 explica a forma como os desejos de Belinda e Sam afectavam a dinâmica do seu relacionamento. “O que provoca lutas e discussões entre vocês? Será que não provêm dos vossos desejos que combatem dentro de vocês? Vocês querem algo mas não conseguem obter nada”. A sua relação era de conflito constante porque os seus dois corações eram governados por desejos de natureza pecadora. Jaime fala sobre desejos interiores, desejos que desencadeiam guerra para estabelecer controlo sobre pessoas, recursos, “território”. A guerra entre o desejo pela família perfeita e o desejo de auto-protecção tomou conta do casamento de Sam e Belinda. O resultado foi, conforme descreve Jaime, o conflito constante.

2. ”Todas as leis se resumem num só mandamento: ‘Ama o próximo como a ti mesmo’.”

Isto também oferece uma compreensão significativa do relacionamento. Os problemas na relação de Sam e Belinda não eram fundamentalmente horizontais (pessoa para pessoa), mas principalmente verticais (pessoa para Deus). Se eu vivo para a glória de Deus, se eu mantenho isto como uma meta pessoal mais importante do que a minha própria felicidade, se o meu amor por Ele estiver acima do meu amor por qualquer pessoa ou qualquer outra coisa, incluindo eu próprio, então a minha meta prática de vida consistirá em agradar a Deus em tudo que faço e digo, em qualquer lugar em que Ele me coloque. Um resultado seguro desse empenho do coração para com Deus consiste em que eu amarei o meu próximo como a mim mesmo. O Primeiro Grande Mandamento precede sempre e determina a realização do Segundo. Eu nunca amarei o meu próximo como a mim mesmo se primeiro eu não amar a Deus acima de todas as coisas.

Jaime 4 é útil neste aspecto mais uma vez. No versículo 4, no meio da sua discussão das causas e curas de conflito humano, Jaime introduz o conceito de adultério espiritual. O adultério ocorre quando o amor que foi prometido a uma pessoa é dado a outra pessoa. O adultério espiritual acontece quando o amor que pertence a Deus é consagrado a algum aspecto do mundo criado (ver Romanos 1:25). Jaime afirma algo extremamente útil quando procuramos entender o relacionamento entre Sam e Belinda: o conflito humano tem raízes no adultério espiritual! Quando um desejo por uma certa coisa substitui o amor a Deus como forma controladora no meu coração, o resultado será o conflito nos meus relacionamentos. O conflito tem raízes verticais que produzem o fruto horizontal das lutas e discussões. O amor a Deus que me faz querer guardar a Sua Lei irá sempre resultar em amor prático para com o meu próximo.

3. “Se vós continuardes e morder-vos e a devorar-vos uns aos outros, tende cuidado ou sereis destruídos uns pelos outros”.

Esta última parte de Galacianos 5 é uma descrição acertada das conversas diárias entre Belinda e Sam. Elas mordem-se e devoram-se um ao outro com palavras. A sua comunicação nunca é construtiva, reforçada ou encorajada. Em vez disso, eles são mestres em se ferir mutuamente. Sam conhecia os pontos em que Belinda era fraca e vulnerável e ele avançaria para estes pontos sempre que a encontrasse no caminho do seu sonho. Belinda sabia onde poderia magoar Sam e ela poderia devorar a alegria dele com poucas e bem escolhidas palavras.

As palavras deles eram críticas, condenatórias, manipuladoras, ameaçadoras, julgadoras, egoístas, maliciosas, exigentes, rudes e vingativas. As palavras deles revelavam que Sam e Belinda não precisavam de uma mudança radical no seu vocabulário mas que precisavam de uma mudança radical ao nível do coração. Isto iria alterar fundamentalmente a forma como falavam um com o outro.

A questão não consistia no facto deles entrarem no casamento com problemas. Isto é verdade para todos nós; aliás, Deus concebeu o casamento dessa forma. Esta relação humana significativa existe, não para nosso prazer, mas como um meio do Seu trabalho contínuo de santificação, que nós devíamos ser para enaltecer a Sua glória. Não é por acaso que o nosso relacionamento humano mais significativo (casamento) acontece no meio do processo mais significativo da vida (santificação). Deus o concebeu deste modo para a Sua glória e para bem dos Seus filhos!

Seria errado dizer a Sam e Belinda que o seu casamento tinha chegado a esta situação horrível porque eles estavam amaldiçoados com dificuldades invulgares. O problema não consistia no facto deles terem problemas. A questão central consistia na forma como os desejos dos seus corações ditavam as suas respostas um ao outro no meio desses problemas. Como eles estavam a viver para eles próprios e não para Deus, eles mordiam-se e devoravam-se um ao outro, até ao ponto de quase atingirem a destruição. Sam tinha verbalizado dúvidas sobre a fé e amor de Deus e Belinda tinha deixado de frequentar a igreja. A sua fé estava ferida devido ao naufrágio do seu conflito.

Hebreus afirma que a Bíblia pode expor os “pensamentos e atitudes do coração” (Heb. 4:22f). Galacianos 5 faz exactamente isso por Sam e Belinda. O seu relacionamento não era dirigido pela lei do amor mas por desejos de natureza pecadora. Como Deus não controlava o sistema, eles entraram na situação de procurarem realizar os seus próprios sonhos, desejos e exigências. Na sua raiva e desapontamento mútuo, eles batiam-se um ao outro com palavras. As suas palavras rasgavam o tecido do seu relacionamento porque o tecido da sua fé já tinha sido rasgado nos seus corações.

Falando Palavras de Redenção num Mundo de Pecado

Sam e Belinda mostram-nos que falar de forma redentora não é um assunto superficial que consta em escolher o vocabulário certo, mas um empenho fundamental do coração para escolher palavras que promovam o trabalho de Deus numa situação particular. Belinda e Sam tinham perdido de vista a verdadeira luta que se encontra por trás das discussões humanas. Eles tinham começado a pensar que a sua luta era de carne e sangue e, por isso, lutavam um com o outro para concretizar os sonhos que tinham dominado os seus corações. As suas principais armas eram as suas palavras. O que teria significado para Sam e Belinda falarem de forma redentora na sua situação?

Galacianos 5 continua a fornecer respostas úteis. Conforme eu afirmo, vivei pelo Espírito e não gratifiqueis os desejos de natureza pecadora. Porque os desejos de natureza pecadora são contrários ao Espírito e o Espírito é contrário à natureza pecadora. Mas se vós fordes conduzidos pelo Espírito, não ficareis fora da lei.
Os actos de natureza pecadora são óbvios: imoralidade sexual, impureza e deboche; idolatria e bruxaria, ódio, discórdia, inveja, raiva, ambição egoísta, dissensões, facções e inveja; bebedeiras, orgias e outros semelhantes. Eu vos aviso, conforme já o fiz antes, que aqueles que viverem deste modo não irão merecer o reino de Deus.
Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, gentileza e auto-controlo. Contra estas coisas não existe lei. Aqueles que pertencem a Jesus Cristo crucificaram a natureza pecadora com as suas paixões e desejos. Como vivemos pelo Espírito, vamos continuar com o Espírito. Não vamos ser presumidos, provocadores nem ter inveja dos outros.
Irmãos, se alguém for agarrado por um pecado, vós que sois espirituais, recuperai-o gentilmente. Mas cuidai de vós, pois também podeis ser tentados. Carregai os pesos uns dos outros e, deste modo, vós estareis cumprindo a lei de Cristo (Gal. 5: 16-6:2).

Esta passagem fornece um guia detalhado para o que significa falar de forma redentora. Lembrai-vos que falar de forma redentora não significa que ignoramos as preocupações práticas da vida. Não podemos, porque nós as encontramos todos os dias. Em vez disso, falar de forma redentora dirige-se àquelas preocupações que promovem os interesses do Rei do seguinte modo:

1. Falar de forma redentora começa por reconhecer a guerra interior. (Ver versículos 16,17). Na medida em que permanece o pecado interior, haverá uma guerra dentro dos nossos corações (Rom. 7:7-15, Eph. 6:10-20, Jaime 4:1-10). Devemos sempre estar conscientes deste conflito porque esquecer a presença e poder do pecado interior irá conduzir imediatamente a problemas na nossa conversação. Este é o conflito, a base de tudo aquilo por que lutamos. Nunca devemos deixar de pensar que a nossa luta principal é com carne e sangue (ver Eph. 6:10-12).

Nunca devemos permitir a nós próprios o facto de considerarmos o nosso marido, esposa, pai, filho, irmão, irmã ou amigo como o inimigo. Quando fazemos isso, a nossa meta em breve se transforma em vitória horizontal e a fala redentora sai pela janela. Existe apenas um inimigo que está e maquinar, manipular, tentar, iludir e mascarar para fazer com nos esqueçamos da verdadeira luta e a tentar introduzir-nos desejos de natureza pecadora. Nós derrotamos o trabalho deste inimigo quando falamos uma aos outros sobre uma consciência activa da verdadeira guerra espiritual interior.

2. Falar de forma redentora significa nunca ceder aos desejos de natureza pecadora quando falamos. (Ver versículo 16). Todos nós lutamos com uma série de desejos conflitantes. Quando algo correu mal, podemos desejar que seja encontrada uma solução apropriada e divina, mas outros desejos também se encontram a funcionar. Podemos desejar avaliar a culpa ou livrar-nos a nós próprios da responsabilidade. Podemos desejar tentar todas as outras vezes que esta pessoa fracassou ou fazer com que essa pessoa se magoe tal como nós nos magoamos. Podemos desejar partilhar o fracasso desta pessoa com outra pessoa. Podemos ter inveja de alguém que esteja a receber a atenção que achamos que merecemos. Podemos sentir-nos mais amargos e cheios de ódio em relação a alguém que consistentemente nos fez fracassar. Podemos estar cheios de raiva.

Falar de forma redentora significa dizer ‘não’ a qualquer comunicação que tenha origem nestes desejos. Falar de forma redentora não começa por examinar a situação, as necessidades da(s) pessoa(s) com quem precisamos de conversar, nem as passagens das Escrituras que irão esclarecer o que devemos dizer. Não, falar de forma redentora começa com o auto-exame.

3. Falar de forma redentora significa recusar falar de uma forma que seja contrária àquilo que o Espírito está procurando produzir em mim e nos outros. (Ver versículos 16-18). Como um Cristão, a coisa mais importante na minha vida consiste na conclusão do trabalho de Deus para mim e para os outros, para louvar a Sua glória. Eu nunca quero obstruir aquilo que Ele está a realizar como Redentor nos pequenos momentos de vida. Eu reconheço que, principalmente, esses momentos não me pertencem a mim mas a Ele. Eles são a sala de trabalho onde Ele realiza o Seu trabalho de santificação. A minha tarefa consiste em ser um instrumento utilizável nas Suas mãos redentoras. Todas as vezes em que falo sobre os meus desejos pecadores, estou a comunicar-me de um modo que é contrário àquilo que o Espírito está a procurar produzir em mim.


4. Falar de forma redentora envolve uma vontade de analisar a forma como o fruto da natureza pecadora está presente na minha fala. (Ver versículos 19-21). Se eu estou a procurar viver consistentemente com o trabalho do Espírito em mim e não dou espaço para o inimigo, eu devo pretender analisar a minha fala com o espelho da Palavra de Deus. Eu quero que “as palavras da minha boca e a meditação do meu coração” sejam agradáveis para a opinião do Senhor (Ps. 19:14). Por isso, eu procuro palavras de inveja, ciúme e orgulho. Procuro palavras de parcialidade, dissensão e divisão. Procuro palavras de raiva, zanga, malícia e ódio. Procuro palavras de egoísmo, farisaicas, de auto-protecção e devensivas. Procuro palavras que revelam impaciência, irritação, falta de perdão, desagradáveis e falta de gentileza. Procuro conversa que é rude ou materialista.

Não me analiso com uma atitude mórbida e desencorajadora de auto-criticismo. Eu faço isso com alegria, percebendo que devido à presença interior do Espírito Santo, não tenho que viver sob controlo da natureza pecadora (Rom. 8:5-11). Com alegria procuro agradar ao Senhor todos os dias e em todas as situações! Eu pretendo falar de forma que seja merecedora daquilo que recebi (Eph. 4:1).

5. Falar de forma redentora significa dizer “não” a qualquer racionalização, retirando a culpa ou dizer “não” a argumentos egoístas que iriam desculpar a conversa que é contrária à palavra do Espírito ou que tornaria esta conversa apropriada ou aceitável para um cidadão do reino (Ver versículos 19-21). Eu era um jovem pastor de uma pequena e combativa congregação com grandes necessidades de aconselhamento. Parecia que eu nunca tinha um momento de paz em casa sem que alguém me chamasse com a última e maior crise. Eu temia ouvir o telefone tocar à noite e temia ainda mais as palavras, “Paul, isto é para si”. Embora eu não percebesse, cada vez mais eu considerava certas pessoas na congregação como obstáculos ao que eu queria, em vez de objectos do chamado que eu aceitava alegremente do Senhor. Lembro-me de receber as chamadas e dizer à minha esposa, “Quem será agora?”, mas depois respondia à chamada com um amigável “Como está?”.

Um sábado à tarde, eu estava a descansar em casa com a minha esposa e filhos quando recebo uma chamada de um jovem desesperado. Ele estava desesperado há muito tempo e parecia lembrar-se sempre de me telefonar nos momentos errados. Ele estava sempre desanimado, sempre a pedir ajuda e, no entanto, estava sempre resistente à ajuda que era oferecida. Nada parecia funcionar para ele. Ele afirmava que tinha tentado tudo sem qualquer benefício. Ele estava num dos velhos motéis locais, dizendo que ia acabar com a vida definitivamente. Ele disse que, a não ser que ele tivesse um motivo para viver, iria suicidar-se antes do dia terminar. Descobri onde ele estava, pedi à minha esposa para rezar e entrei no carro para conversar com ele.

Rezei durante o caminho e sabia que a minha esposa estava a rezar, mas havia uma guerra dentro de mim. Eu era esse catálogo de desejos conflitantes! Na verdade eu não gostava deste homem. Não gostava da sua postura de ombros curvados. Não gostava da sua voz queixosa. Não gostava da sua necessidade de ser sempre o centro da atenção de alguém. Odiava a forma como ele desprezava cada opinião que eu lhe oferecia. Ressentia-me pelo tempo que ele me tinha tirado do convívio da minha família e outros aspectos do meu ministério. E eu estava zangado por ter que ir mais uma vez tentar recuperá-lo. Enquanto guiava o carro, os meus pensamentos andavam para a frente e para trás na guerra entre a preocupação pastoral e o ressentimento pessoal.

Cheguei ao motel e sentámo-nos num quarto sombrio que cheirava a fumo e suor. Ele presenteou-me com a sua normal litania de queixas. Comecei a responder com verdades do evangelho quando ele me interrompeu e disse, “Você não vai começar a despejar todas essas coisas mais uma vez, pois não? Você não tem nada de novo para dizer?” Eu mal acreditava no que estava a ouvir. Aqui estava eu, que tinha deixado a minha família por causa dele e ele troçava dos meus esforços para ajudar sem qualquer apreço! Perdi a calma e dei lugar à raiva que tinha construído durante semanas. Comecei a destruí-lo verbalmente. Disse-lhe exactamente o que eu e a congregação pensávamos sobre ele. Coloquei nele a maior culpa que pude, disse-lhe para sair da sua incapacidade para fazer alguma coisa para mudar, rezei para ele (!) e parti. Eu estava a ferver quando voltei para casa no carro.

Não passou muito tempo para me acalmar enquanto conduzia para casa. Também não passou muito tempo para que se colocassem argumentos para racionalização e auto-desculpa. Quando cheguei a casa, estava convencido de que tinha falado como um dos profetas antigos, proclamando um “assim afirma o Senhor” num local pecador e rebelde. Eu estava convencido que Deus usaria este momento dramático de verdade para criar a última mudança duradoura na vida deste homem. Cheguei a casa e a minha esposa, que tinha estado a rezar, perguntou-me como as coisas se tinham passado. Eu disse-lhe que tinha falado com ele de forma mais dura do que jamais tinha falado com alguém no meu ministério. Tenho a certeza que usei a analogia do profeta com ela. Ela respondeu imediatamente, “Parece-me que você ficou com raiva e explodiu”. No momento em que ela disse estas palavras, percebi as minhas racionalizações auto-explicativas e o que elas realmente significavam, e fiquei cheio de remorsos. Quando isso passou, Deus usou a minha confissão subsequente do meu próprio pecado e luta com este homem para começar a modificá-lo.

Deus quer usar-nos não só para ouvirmos a fala contrária ao trabalho do Espírito, mas também como formas de racionalizarmos conversas pecadoras para torná-las aceitáveis para as nossas consciências.

6. Falar de forma redentora significa falar “de acordo com o Espírito”. (Ver versículo 25.) Manter-nos de acordo com o Espírito significa um empenho para falarmos de forma que seja consistente com o Seu trabalho em mim e que encoraje o Seu trabalho no outro. Nesta passagem, o trabalho do Espírito torna-se muito claro. Ele está a trabalhar para produzir em nós um resultado consistente com o carácter de Cristo: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, gentileza e auto-controlo. Falar de acordo com o Espírito significa que, como um acto de fé e submissão, eu mantenho a minha fala no padrão deste fruto espiritual. E considero as situações difíceis da vida como oportunidades que me são dadas de forma soberana para ver este fruto amadurecer em mim por Sua graça. Dificuldades não são obstáculos para o desenvolvimento deste fruto, mas oportunidades para o ver a crescer.

Há alguns anos havia um homem na nossa congregação que era muito crítico quando ao meu ministério. Eu lutava sempre comigo mesmo quando via este homem ou até quando pensava nele. Posso lembrar-me de me sentir aliviado quando chegava a um templo e descobria que ele não estava presente. Também sabia que ele não guardava as suas opiniões para ele mesmo. Ele começou a reunir à sua volta um grupo de populares que pensavam como ele. A nossa congregação não era grande e, por isso, o descontentamento tornava-se cada vez mais claro. Eu decidi que era o momento de falar com este homem. Disse à minha esposa que estava a pensar em falar com Pete (nome fictício). Ela perguntou-me imediatamente o que é que eu pensava em dizer. À medida que eu partilhava os meus pensamentos com ela, pude perceber que ela estava a responder de forma negativa, por isso perguntei-lhe o que estava errado. Ela respondeu, “Antes de poderes falar com ele, Paul, tens que falar contigo mesmo. Parece-me que tu odeias este homem. Não acho bom que o confrontes com esse sentimento errado antes de tratares das tuas próprias atitudes”.

Eu queria pensar que Luella era apenas mais uma pessoa que não me entendia e que me julgava mal, mas não era esse o caso. Jamais se tinham falado palavras mais verdadeiras. Eu odiava este homem. Eu odiava o efeito controlador que ele tinha sobre mim. Eu odiava o facto dele ter virado outras pessoas contra mim. Eu odiava a forma como as suas críticas me tinham causado desconfiança sobre o que eu próprio tinha feito como pastor! Eu odiava a forma como ele tinha destruído o meu sonho para o meu ministério e a nossa congregação. Eu odiava o sorriso arrogante da sua face. Na verdade, eu não queria enfrentá-lo. Eu apenas queria que ele saísse da minha vida!

Luella tinha razão. Eu não estava em condições de ser um instrumento do Espírito na vida de Pete. Eu não estava em posição de falar de forma redentora. Eu estava totalmente em desacordo com o Espírito no que dizia respeito a este relacionamento, Eu precisava de tratar primeiro de mim. Eu precisava de analisar o meu coração e confessar o pecado que estava ali e eu precisava de determinar a forma de falar de modo que isso fosse consistente com o fruto que o Espírito estava a trabalhar em mim.

À medida que analisava o meu coração, havia mais ali que precisava de mudança do que eu jamais tinha pensado. O meu problema não era apenas ódio e raiva, mas pecados a um nível muito mais profundo. Muito daquilo que me tinha motivado no ministério não era o trabalho do Senhor mas o meu sonho pessoal. Eu tinha sonhado em caminhar para uma área difícil como ministro e em ter sucesso de forma que ninguém mais tinha conseguido. Eu tinha sonhado em ser altamente respeitado por uma congregação sempre crescente e, dentro de algum tempo, por toda a comunidade Cristã. Eu tinha sonhado em grande crescimento numérico, em construir uma instalação grande e moderna e em liderar “a igreja mais activa” na região. E principalmente, eu tinha sonhado que seria considerado como o centro de tudo.

Eu odiava este homem porque ele estava certo! Ele não estava certo na forma como tinha tratado as suas preocupações sobre o meu ministério, mas ele estava certo no que pensava sobre o meu orgulho. Eu gostava de estar no centro de todas as reuniões. Eu tinha sempre a última opinião sobre todos os assuntos. Eu ficava frustrado quando as pessoas se intrometiam no caminho dos meus programas inovadores. Eu odiava a forma lenta como as coisas andavam e o modo como as pessoas eram negativas. E eu lutava com Deus para me colocar neste local difícil.

O homem que eu odiava começou a ser um instrumento de salvação nas mãos do Senhor. Através de Pete o meu sonho egoísta e arrogante foi exposto e começou a morrer. Sob o calor deste julgamento, Deus mostrou-me o pecado no meu coração de uma outra forma. À medida que eu demorava vários dias para me analisar a mim próprio e a esta situação, comecei a sentir-me grato ao mesmo homem que eu tinha odiado. Eu não estava grato pelo seu pecado, mas estava grato pela forma como Deus o tinha utilizado na minha vida. À medida que me tornava agradecido, comecei a ouvir o que Pete dizia sobre mim e a forma como ele dizia isso. Percebi que eram coisas que Deus queria que eu aprendesse a partir deste mensageiro duro. Finalmente, à medida que ouvia a forma como ele comunicava os seus pensamentos, descobri que ele e eu éramos muito parecidos. Pete era orgulhoso, com opiniões, falava e era impaciente. Eu tinha odiado todas estas coisas mas aprendi que elas também estavam presentes dentro de mim.

Nesses dias, Deus deu-me um amor genuíno e pastoral para com Pete; e quando conversamos, fui capaz de lhe comunicar de forma paciente, amável, gentil, pacífica e auto-controlada. Até fui capaz de entrar na sua conversa difícil com alegria, pois reflecti no bem que o Espírito me tinha feito através dele.

Falar de acordo com o Espírito significa não só falar de forma que seja consistente com aquilo que o Espírito está a fazer em mim; significa também falar de forma que encorage o crescimento deste fruto em vós. Francamente, antes de Luella me ter falado, não me importava com o facto de Deus me ter usado na vida de Pete. Havia apenas duas coisas com as quais eu me importava: Eu queria provar que Pete estava errado e depois, eu queria que ele deixasse a nossa igreja e me deixasse em paz! Eu tinha chegado a pensar que a minha luta era feita de “carne e sangue” (Eph. 6:10-12). Eu via Pete como o inimigo a ser derrotado e perdi de vista a guerra espiritual por baixo da superfície. Eu não queria servir Pete; eu queria que ele apoiasse o meu sonho. Mesmo como seu pastor, a última coisa que eu queria era ser um instrumento que o Espírito poderia usar para produzir bons frutos na sua vida até eu ter conversado com Luella.

Quando finalmente conversei com Pete, eu tinha uma agenda completamente diferente daquela que primeiro tinha discutido com a minha esposa. Eu já não queria “vencer”. Eu não queria expulsá-lo nem queria a sua complacência para com o meu sonho. Eu na verdade queria ser usado por Deus para produzir o fruto do Espírito em Pete. Ele veio para o nosso encontro pronto para combater. Era claro que ele tinha preparado as suas armas e ensaiado as suas defesas. Mas não houve combate. Eu disse-lhe que estava grato pelas suas opiniões; que através dele, o Espírito tinha realmente exposto o meu coração e pedi-lhe perdão. Antes mesmo de ter uma oportunidade de lhe falar ele disse, “Paul, eu também errei. Creio que se tivesse sido honesto, teria que dizer que o odiei e que procurei todas as oportunidades para o criticar aos outros. Tenho estado zangado consigo e zangado com Deus por nos colocar nesta congregação. Eu preciso do seu perdão!”

Nessa noite, pela primeira vez há muito tempo, Pete e eu falámos de acordo com o Espírito e o Espírito produziu um crescimento novo em cada um de nós. Mas não se esqueça do ponto principal: isto começou com alguém que me enfrentou e me encorajou para analisar o meu próprio coração antes de confrontar Pete. Falar de acordo com o Espírito significa ter tempo para ouvir, analisar, reflectir e preparar. Significa comunicar e empenhar-se em participar no trabalho contínuo de graça do Espírito nas nossas vidas e nas vidas dos outros.

7. Falar de forma redentora significa não dar lugar às paixões e desejos da natureza pecadora. (Ver versículos 24, 16). Preste atenção cuidadosa às palavras do versículo 24: “Aqueles que pertencem a Cristo crucificaram a natureza pecadora com as suas paixões e desejos”. Repare que isto não é uma passagem passiva. Ela afirma que quando chegamos até Cristo, nós crucificamos as paixões e desejos de natureza pecadora. Esta passagem dirige-nos para a consideração de um aspecto do evangelho que é muitas vezes omitido. O evangelho é uma mensagem gloriosa de conforto, de pecados perdoados, condenação retirada, relacionamento com Deus reconciliado, Espírito dado e eternidade garantida. Mas o evangelho é também um chamado para renunciar à vida de desejos insaciáveis de natureza pecadora, de forma que possamos viver para Cristo. A verdadeira salvação não consiste apenas em receber conforto; também consiste em responder ao chamado. Este empenho para estarmos sempre de acordo com a vida divina, crucificando as paixões e desejos de natureza pecadora, deve então ser vivido pelo interior Poder de Cristo em todas as nossas relações e situações.

Não existe lugar onde este empenho seja mais necessário do que na área da comunicação. Se nós formos humildemente honestos, devemos admitir que muito daquilo que dizemos é comandado pelas paixões e desejos de natureza pecadora, e não por um empenho para com a vontade e trabalho de Cristo. Maridos que permitem um espírito crítico raivoso para com as suas esposas, esposas que desistem resmungando e queixando-se, crianças que sentem ódio contra os seus pais, pais que frustrados batem nos filhos com palavras, membros desapontados do corpo de Cristo que difamam os seus líderes estão todos dando lugar a paixões e desejos de natureza pecadora. O resultado consiste numa colheita de maus frutos constando de quebra de relações e problemas não resolvidos, cada vez mais complicados.

Falar palavras que sejam moldadas pelas emoções e desejos de natureza pecadora equivale a negar a promessa de Cristo de liberdade do domínio do pecado e do nosso empenho em viver como aqueles que pertencem a Ele. Falar de forma redentora significa falar de auto-controlo poderoso que Cristo nos concedeu, Aquele que parte as cadeias da nossa escravidão ao pecado e que nos deu a dádiva do Seu Espírito interior. As nossas bocas podem ser instrumentos de justiça! Nós podemos dizer “não” às emoções e desejos de natureza pecadora.

8. Falar de forma redentora significa ter uma opinião recuperadora de relacionamentos. (Ver capítulo 6, versículos 1 e 2). Paulo afirma, “Irmãos, se alguém é apanhado num pecado, vós que sois espirituais, deveis recuperá-lo gentilmente”. Paulo fala sobre uma condição que inclui todos nós que estamos deste lado de glória. Nós somos “apanhados” em raiva, orgulho, auto-piedade, inveja, vingança, auto-convencimento, amargura, luxúria, egoísmo, medo e descrença. E, ou não sabemos sequer que estamos apanhados, ou não sabemos a forma de nos desenredarmos. Existem áreas de pecado para as quais nós estamos cegos ou que compõem o nosso particular tema de luta. Um dia chegará em que a cilada final cai e nós estaremos com Cristo para sempre! Mas até esse momento, precisamos de reconhecer que, como pecadores, nós somos facilmente apanhados no pecado. Por causa disso, precisamos uns dos outros.

Paulo então diz, “Vós que sois espirituais, deveis recuperá-lo gentilmente”. Quando estamos “de acordo com o Espírito” (versículo 25), colocamo-nos como um dos Seus recuperadores.

Falar de forma redentora significa permitir que esta agenda de recuperação dirija as nossas relações. Somos todos tentados para pensar que as nossas relações nos pertencem. Temos tendência a considerar os outros como nossa possessão. Pais caem nisto com os seus filhos; depois, na adolescência, quando a criança erra, os pais são incapazes de ver além da sua própria zanga e mágoa para serem agentes de recuperação dos seus próprios descendentes! Maridos e esposas acreditam que é responsabilidade do companheiro fazerem o outro feliz. A vida torna-se numa série de exames finais. Nós julgamos as pessoas de acordo com a forma como elas nos respondem, com a forma como nos afectam. Esperamos receber respeito, amor, apreciação, aceitação e honra e achamos muito difícil continuar os relacionamentos onde essas coisas não existem.

Paulo convoca-nos para fazer algo completamente diferente aqui. Esta nova agenda tem as suas raízes no reconhecimento fundamental de que os nossos relacionamentos não nos pertencem a nós mas a Deus. Logo que começarmos a pensar nos nossos relacionamentos desta forma, começamos a ver a necessidade de recuperação em torno de nós. Quando você está de férias e os filhos estão a discutir no assento de trás, existe probabilidade de que as suas férias caras venham a ser arruinadas! A necessidade de recuperação está a revelar-se. Você pode responder a esta situação como um pai irritado cujos filhos estão a roubar o seu sonho de férias, ou você pode responder como um recuperador que pretende ser um instrumento nas mãos do grande Recuperador.

Quando maridos e esposas discordam sobre o mesmo problema antigo mais uma vez, eles precisam de fazer mais do que amaldiçoar o facto de que o seu casamento não funciona ou que a outra pessoa nunca tem uma solução. Eles precisam de descobrir onde é que foram “apanhados” e precisam de responder um ao outro, não na forma de exigência, mas com uma agenda de recuperação. O maior trabalho das relações humanas consiste, não na busca da felicidade humana, mas na reconciliação com Deus e recuperação da imagem do Seu Filho.

9. Falar de forma redentora significa falar com humildade e gentileza. (Ver capítulo 6, versículo 1). Conversa dura (“Porque é que vocês não actuam em conjunto?” “Se vocês pensam que eu vou limpar a vossa desordem, é melhor pensarem noutra coisa!”) e conversa orgulhosa (“Nos meus tempos”, ou “Eu não consigo relacionar-me com pessoas que façam isso!”) perante as fraquezas, tentação e pecado dos outros contradizem simplesmente a mensagem do evangelho.

Gentileza deve constituir a nossa resposta natural quando vemos um irmão ou irmã enredados no pecado. Devemos reconhecer que, excepto pela graça de Deus, nós estaríamos onde eles estão. Portanto devemos responder-lhes com a mesma graça que nós recebemos. Deus amou-nos quando nós estávamos sem amor. Ele perdoou-nos perante o pecado repetido. De facto, foi o Seu amor que nos tirou da escuridão na direcção da Sua luz maravilhosa. Na nossa comunicação mútua, como todos nós lutamos com a realidade do pecado remanescente, é vital que nós espelhemos o amor compulsivo de Cristo. Ele é o nosso único argumento, a nossa única esperança. Apenas Ele é capaz de mudar os nossos corações. Nós queremos falar de forma a podermos conduzir pessoas para esperarem n’Ele.

Também estamos livres para sermos gentis porque desistimos de qualquer esperança que a pressão humana, poder ou lógica possam mudar o coração. Nunca é a voz forte com que falamos, o poder das nossas palavras, o drama do momento, a criatividade das nossas ilustrações, a força do nosso vocabulário, o espectro das nossas ameaças, ou a grandeza dos nossos gestos que provoca a transformação dentro das pessoas.

A gentileza flui a partir do conhecimento do lugar onde se encontra o nosso poder. Deus pode usar palavras segredadas para produzir uma poderosa convicção num coração. Sim, queremos pensar e falar bem, mas apenas porque queremos ser instrumentos úteis nas mãos d’Aquele que transporta mudança, e não porque confiamos nas nossas capacidades de a produzir.

Uma conversa gentil não vem de uma pessoa que está zangada e que quere vencer. Uma conversa gentil vem da pessoa que fala, não por causa daquilo que ela quer de você mas daquilo que ela quere para você. Eu posso falar gentilmente apenas quando não falo com mágoa pessoal, raiva e amargura mas com amor redentor, com auto-sacrifício. Eu falo consigo, não porque o seu pecado me afectou, mas porque ele montou uma cilada para você. Eu desejo que você se liberte dessa cilada. Não estou numa missão de confrontação egoísta mas numa missão de amor. E eu sei que, de alguma forma, todos precisamos de ser salvos diariamente.

10. Falar de forma redentora, viver concentrado no outro e comunicar com o outro. (Ver Gal. 6:2). O quadro aqui consiste de pessoas numa viagem. Elas não se concentram apenas naquilo que têm que transportar mas olham em volta para aqueles que precisam de apoio. Com estas palavras, “Transportar as cargas uns dos outros”, Paulo alarga este chamado para nós. Ele chama-nos para olharmos para além do nosso conforto pessoal, sucesso e bem, para vermos a pessoa que está a lutar para carregar a sua carga e para partilhar o peso. Este é o caminho de Cristo.

Também somos chamados para falar uns aos outros fora desta mentalidade de “suportar a carga”. Quando vemos alguém a lutar com fraqueza, nós indicamos-lhe a força que ele tem em Cristo. Quando alguém é ignorante, nós dizemos palavras que transmitem sabedoria. Quando alguém tem medo, nós falamos de Deus que está sempre presente para nos ajudar. Quando alguém está angustiado, nós procuramos trazer palavras de conforto. Quando o outro está sem coragem, nós procuramos trazer palavras de esperança. Quando alguém se sente só, nós saudamos com expressões do nosso amor e com a presença de Cristo. Quando alguém está zangado, nós apontamos para um Deus de rectidão, vingança e justiça. Quando estamos engajados em conflito, procuramos falar como fazedores de paz e reconciliadores. Quando ansiosos, apontamos o Sabbat de descanso que Cristo deu aos Seus filhos.

Falar de forma redentora significa escolher cuidadosamente as nossas palavras. Não queremos satisfazer as paixões e desejos de natureza pecadora. Não queremos provocar outros para o pecado através da nossa própria arrogância e inveja. Não queremos morder e devorar-nos uns aos outros com palavras. Em vez disso, estamos empenhados a servir-nos mutuamente em amor com as nossas palavras. Queremos falar de acordo com aquilo que o Espírito está a buscar produzir em nós e nos outros. Nós queremos falar de uma forma que seja consistente com o Seu fruto e que encoraje o crescimento desse fruto nos outros. Finalmente, queremos falar como agentes gentis e humildes de recuperação, como ajudantes para carregar a carga dos que estão empenhados a viver pela regra do amor de Cristo.

Que renascimento radical, reconciliação e recuperação resultariam nas nossas igrejas, casas e amizades SE nós transportássemos esta mensagem para todos os relacionamentos e para todas as situações! Como seriam diferentes as coisas se nós estivéssemos empenhados consistentemente em falar de forma redentora! Como seria completamente diferente a relação de Belinda e Sam se eles tivessem respondido ao chamamento de Deus para falarem um para o outro com palavras de redenção! Como é importante para nós, escolhermos bem as nossas palavras!

Paul Tripp é director dos Ministérios Vidas em Mudança e conselheiro e membro de faculdade em CCEF, Glenside, Pennsylvania. Este artigo é extraído de um livro sobre comunicação, a ser publicado na Série Recursos para Vidas em Mudança