A Ira, Parte 2: Três Mentiras sobre a Ira e a Verdade Transformadora

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English: Anger Part 2: Three Lies about Anger and the Transforming Truth

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Por David Powlison Sobre Anger
Uma Parte da série Journal of Biblical Counseling

Tradução por Gertrudes Mendonca


O que é a ira? Como devemos lidar com ela? A primeira parte deste artigo[1] procurou prover suportes bíblicos para o entendimento dessa experiência volátil. Vimos que a Bíblia trata sobre a ira em ricos detalhes. Vimos que a ira envolve a pessoa total: corpo, emoções, mente, motivos e comportamento. Ela contém um foco inter-pessoal, relacionando-se sempre com Deus e, usualmente, com outras pessoas. A ira é igualmente natural e aprendida, para o bem ou para o mal. É um assunto moral. Deus dá-nos uma cosmovisão de onde podemos pensar sobre a ira e dentro da qual, lutarmos com as diversas expressões que nela encontramos.

Na Parte 2, criticaremos três dos mais perniciosos conceitos falsos sobre a ira que dominam nossa cultura. Como conselheiros Cristãos, podemos oferecer a alternativa bíblica com toda a sua profundidade, esperança e poder para as pessoas enredadas em ensinos mentirosos. A verdade provê um caminho para sair-se da ira e da confusão que a circunda. Esta parte do artigo concluirá com um conjunto de oito perguntas que ajudam a avaliar e a vencer a ira de uma maneira piedosa, cristã.

Mentira #1: A ira é alguma coisa dentro de mim.

Uma implicação fundamental de tudo o que temos discutido, consiste no facto de que a ira não é uma “coisa”. É, sim, um acto moral da pessoa total, não uma “substância” ou “alguma coisa” dentro de você. Isto pode parecer óbvio, mas os entendimentos mais populares da ira, não podem ver essa verdade. É, a ira, um fluido quente e emocional que aumenta a pressão interior? Ou será que a ira é um demónio que toma residência no indivíduo? Estas ideias comuns – que se opõem mutuamente de uma forma ou outra! – concordam, ambas, em que a ira é “alguma coisa”.

Na cultura ocidental em geral, muitas teorias sobre a ira consideram-na como um fluido emocional que aumenta a pressão interior e que precisa ser liberada. Esta teoria “hidráulica” da ira contribui para a sabedoria popular de que a ira “apenas existe, e que não é boa nem má”. As coisas são neutras; os agentes morais não o são. Porque esta teoria parece tão plausível? Porque imagens semelhantes às que se seguem, captam algo daquilo com que a ira se parece: A ira de uma pessoa pode ser “reprimida”; “a sua bomba está carregada”. As pessoas podem ficar “a ferver de ira”, “cheias” de ira, quase a “explodir”. Elas “estouram o vapor”. A ira velha e não resolvida, pode ser “armazenada no interior”, “abrigada” por décadas. Se você “expelir a ira do seu peito” até que a sua ira se “consuma”, você sentir-se-á melhor. Todas estas metáforas persuasivamente retratam a ira como uma substância pressurizada dentro de nós.

Sem dúvida, estas descrições coloridas captam a forma como a ira se faz sentir. Mas uma metáfora não se destina a sobrepor-se àquilo que ela pretende ilustrar. Os escritores do Antigo e Novo Testamentos, por exemplo, na verdade não criam que uma fornalha interior permanecia alimentada para aquecer quando você se “queimasse” de ira.

A metáfora de “queimar”, capta graficamente a sensação de ira e os seus efeitos, mas não se destina a cancelar o facto de que a ira é algo que as pessoas fazem. A ira é sentida como escaldante, mas não é um fogo. A solução para a ira injusta e pecaminosa, não consiste em remover cirurgicamente a fornalha ou em beber água o suficiente para apagar o fogo! A solução é moral: consiste em “converter-se” do pecado à graça de Deus em fé e arrependimento.

Que pretendo comunicar quando digo que “A minha vizinha encolerizada ruge, ladra, vocifera e espanca os seus filhos; ela os morde, fica enraivecida e deita espuma pela boca?” Trata-se de palavras alegóricas e iluminantes, mas certamente não quero dizer que ela tem um cão hidrofóbico dentro de si, e que o cão raivoso a tem sob seu domínio! Nesse caso, as únicas soluções consistiriam em colocar-lhe uma focinheira ou tirá-la da sua condição miserável. Um cão louco é uma “coisa” que, simplesmente descrever, não resolve. Mas já conheci indivíduos resmungões que, ouvindo a Deus, se arrependem, crêem, obedecem e passam a viver pacificamente.

Quando as pessoas acreditam que a ira é uma substância pressurizada, como algo no seu interior e não como algo que elas produzem, a ideia aponta para uma solução diferente do arrependimento. Parece lógica, então, a necessidade de algum tipo de catarse. O aconselhamento tentará libertar a pressão “lancetando o abcesso” (mais uma metáfora!). “Você tem esta coisa quente a ferver dentro de si e isso precisa sair. Tome esta almofada. Chame-a de sua mãe. Pegue neste bastão de basebol e espanque a almofada, amaldiçoando-a por tudo o que ela fez. Dessa forma você eliminará a ira do seu sistema. Você vai sentir-se melhor e será curado”. O cenário pareceria lógico, se a ira fosse apenas uma coisa interna. Mas como a cólera não é uma coisa, mas um acto moral da pessoa total, o cenário é de pecado.[2] A cóira não é uma “coisa”, portanto, a solução verdadeira é o entendimento, reconhecimento do erro, arrependimento, fé e nova obediência pelo poder da graça de Deus.

A segunda forma em que a cólera é visualizada como “uma coisa”, encontramos em culturas animistas – e em alguns segmentos da cultura Cristã contemporânea.

Nesses ambientes, muitas pessoas tratam a ira como um “demónio”. A lógica é idêntica ao modelo secular hidráulico. Outra vez a ira é alguma coisa dentro de você. Retirando a “coisa” para fora de si, neste caso, expulsando-a, você ficará consertado. Novamente, a teoria parece plausível. Tal como muitas pessoas fervem, também a ira, como qualquer pecado, nos faz parecer exactamente como um diabo. Ele é o acusador que usurpa o trono de julgamento, vomita meias verdades e mentiras, e provoca a ira contra Deus e contra outras pessoas. Todo esse mundo irado está sob o seu poder e o diabo procura moldar-nos à sua própria imagem. Quando você vê (ou se comporta como) uma pessoa pecaminosamente encolerizada, voilá, a imagem do demónio é exposta. Mas a mão do diabo na ira, não difere do seu envolvimento como em qualquer outro pecado. Ele não nos “demoniza” em pecado; ele governa-nos. Ele tenta e mente no seu esforço por nos controlar e destruir. A solução consiste, não em exorcismo de supostos demónios de fúria, ira, orgulho e rebelião; ela consiste no arrependimento da fúria, ira, orgulho e rebelião e de voltar-nos para a graça do Senhor. A ira é um ato moral, não uma “coisa” que habita em nosso interior e a sua solução, portanto consiste, igualmente, num ato moral.[3]

Como a ira é algo que as pessoas fazem como agentes morais, não há motivo para que se lhe dê evasão, ou para que ela seja exorcizada, a fim de que seja realmente resolvida. As teorias que liquidificam ou “demonizam” a ira, parecem plausíveis porque elas se inspiram numa metáfora vívida, ou num acusador (um diabo) que está espreitando de perto. Mas, tais conselheiros, interpretam erroneamente aquilo que vêem e levam as pessoas a um extravio.

Mentira #2: Está bem que nos iremos contra Deus

Já vimos antes que a ira contra Deus é algo comum. A Bíblia fala disto várias vezes.[4] É uma das reações humanas mais lógicas devido à natureza do pecado, mas é uma perversidade fatal. Aquilo que a esposa de Job disse foi um conselho terrível mas pelo menos ela colocou tudo de forma clara: “Amaldiçoa Deus e morre” (Job 2:9).

Muitas psicologias populares discutem a ira contra Deus de uma forma, em nada, útil. O conselho padrão é algo como o seguinte: “Se você está irado contra Deus, então existem quatro coisas que você precisa fazer, a saber: primeiro, lembrar que a ira é justa, ela não é boa nem má. É coisa normal sentir ira contra Deus. Ele criou-nos com as emoções da ira; segundo, Deus muitas vezes deixa-nos frustrados e desaponta-nos. Como é que poderemos explicar o facto de que outros estejam a abusar de nós, e implorarmos para que Ele nos liberte quando, no entanto, o abuso continua? Ele supostamente está no controlo, então poderia ter feito parar o abuso, mas não o faz; terceiro, você necessita expor a sua ira contra Deus. Ele ama-nos com maturidade e o amor maduro pode absorver a ira honesta do ser amado. Assim, pois, não tenha receio de Lhe dizer exactamente aquilo que você sente e pensa. Muitos Salmos retratam a ira contra Deus, por isso, se outras pessoas piedosas manifestaram a sua ira contra Ele, você também pode fazê-lo. Não censure os seus sentimentos e sua linguagem, mas diga o que você sente para que não seja tido como um hipócrita; quarto, você precisa perdoar a Deus. O perdão é o oposto da ira, e você precisa sair da sua hostilidade para poder estar em paz consigo mesmo e para construir uma relação de confiança com Deus. Perdoe-Lhe pelas formas como Ele permitiu que você se desiludisse.” É, este ensino, plausível? Muitos acham que sim. É coerente? Sim, mantém coerência. Mas, é verdadeiro? Nunca. De maneira nenhuma.

A ira contra Deus pode ser examinada de forma vantajosa perguntando-se, “O que é que você quer?” e, “O que é que você crê?” – simplesmente como você faria com qualquer outro exemplo de ira. Aquilo que invariavelmente você vai encontrar é que o seu coração é controlado por particulares anseios e mentiras que substituem o Deus vivo e verdadeiro. Por exemplo, se eu anseio casar-me e creio que Deus deverá recompensar a minha devoção para com Ele em dar-me uma esposa, o meu coração, desde então, se dispõe para sentir ira contra Deus. A ira virá quando o desejo não é satisfeito e a fé se comprova injustificada.

A ira dirigida contra Deus, do tipo que é frequentemente vista no aconselhamento, é – virtualmente sem excepção (e iremos discutir aqueles Salmos “de ira” em breve) – ira injusta e pecaminosa. Ela transborda com malícia e desconfiança para com Deus. Ela firmemente abraça (e proclama) mentiras sobre quem Ele é. Ela racionaliza qualquer número de comportamentos auto-destrutivos e pecaminosos. A ira contra Deus apresenta uma maravilhosa oportunidade de aconselhamento. Tratada correctamente, é a vereda real para entender-se a desordem diabólica do coração humano. Pela graça de Deus, aqueles que se iram contra Ele podem frequentemente descobrir, pela primeira vez, quem Deus é em verdade e, ao mesmo tempo, quem eles próprios são.

Examinemos a fórmula terapêutica ponto por ponto. Primeiro, tratámos com o facto de que a ira não é neutra. A pessoa irada contra Deus, irá acusá-lO maliciosamente, ou poderá, por outro lado, expressar uma fé viva n’Ele. Aquelas emoções de ira com as quais fomos “criados” podem ser piedosas e justas, ou podem ser diabólicas. Em contraste, a primeira peça do aconselhamento terapêutico secular se esquiva inteiramente do dilema moral inerente da ira.

Segundo, perguntamos, Deus nos desampara quando sofremos? Em nenhuma parte da Bíblia encontramos sequer uma remota evidência de que Deus, na verdade, nos atraiçoe. A Bíblia discute constantemente o sofrimento, mas ela mostra-nos sempre que qualquer “traição” aparente de Deus, deve ser vista no contexto dos Seus objectivos mais abrangentes. Certamente que outras pessoas podem decepcionar-nos seriamente, verdadeiramente. Os abusadores sexuais traem a confiança de forma tão abominável que, se o inferno tiver gradações, eles merecem o fosso mais profundo.[5] Certamente que o diabo nos atormenta. E isso é o que realmente ele faz. O sofrimento, por definição, fere. A ira contra os tiranos e contra o arqui-tirano (o diabo) é ardorosamente devida. E queixar-se (perante Deus, com fé e esperança) sobre os nossos sofrimentos, é profundamente aceitável. Mas Deus nunca prometeu livrar-nos de lágrimas, luto, choro e dor – ou dos males que causam estas coisas – até ao grande dia em que a vida e a alegria triunfarem para sempre sobre a morte e a miséria. Os laços da glória de Deus com o nosso bem-estar é muito maior do que as pessoas em geral imaginam. Então, devemos perguntar, as pessoas iradas com Deus crêem em falsas promessas, ou, exageraram as suas próprias expectativas de Deus? Terão elas, assim, se tornado iradas contra um Deus “decepcionante” e, até mesmo, confundido as Suas ações e motivos como vindos de Satanás ou como vindo de pessoas más que imitam a crueldade do diabo? É curiosa a forma como as pessoas que realmente não crêem na soberania de Deus, se tornam hiper-calvinistas quando estão iradas com Ele. “Ele podia ter mudado as circunstâncias e não o fez”. Crer realmente na soberania de Deus, consiste em adquirir uma base inabalável de confiança no meio dos tormentos mais infernais – muito mais quando as dores são mais amenas.

É o verdadeiro Deus que nos salva dos tiranos, e não o “tirano” - o diabo - quem nos livra. Deus é a única esperança dos “pobres, aflitos, necessitados, infelizes e oprimidos” que se vêm, eles próprios, atacados num mundo “cheio de violência”. E – numa verdade tão profunda que apenas a podemos afirmar com estremecimento – quando somos honestos connosco mesmos, percebemos que somos mais parecidos com o tirano do que somos diferentes dele. A linha entre o bem e o mal corre através de todos os corações, excepto no coração do Cordeiro de Deus. Não é que mereçamos dos outros aquilo que eles nos fizeram a nós. O que fizeram foi simplesmente mau e será recompensado totalmente com a ira de Deus (derramada quer sobre os que tiranizam, ou derramada sobre Cristo a favor daqueles que se arrependem). Mas isso não significa que sejamos por isso inocentes, pois nós também merecemos a ira de Deus por nossos pecados. Jesus, porém, sofreu as torturas que nós, por justiça, merecíamos sofrer.

A ira de Deus que os conselheiros muitas vezes vêem, mascara invariavelmente uma profunda hipocrisia e exprime uma incredulidade óbvia. Em parte nenhuma a fórmula terapêutica do mundo desafia esta hipocrisia e incredulidade. Em vez disso, ela reforça-a (o que é o motivo pelo qual muitos acham o modelo terapêutico tão plausível e atractivo!). Porquanto nunca fala sobre o pecado existente na ira contra Deus, a fórmula terapêutica secular nunca pode oferecer aquela que é a única esperança verdadeira para esses afligidos, a saber, o Salvador que suportou sobre Si o nosso pecado, e que irá libertar o Seu povo da condenação e da corrupção dos seus pecados, e também da dor causada pelos pecados dos outros.

A Bíblia desafia também o terceiro ponto na fórmula terapêutica. Você não precisa dar vazão à sua ira pecaminosa contra Deus com o fim de resolve-la. Você precisa, sim, de se arrepender de sua ira, como o fez Jó. Você precisa entender as demandas, as falsas crenças, a hipocrisia que a produzem e a impulsionam. Não existe nenhum Salmo que encoraje esse tipo de dar vazão e expressão da ira hostil como os terapeutas encorajam. Nos salmos que demonstram “ira”, sem nenhuma excepção, aquilo que transparece é uma atitude de fé. Sim existe contrariedade, queixa, dor e consternação. Podemos com reverência chamar isso de ira justa porque ela anseia pela glória de Deus e pelo bem-estar do Seu povo. Essa ira amorosa anseia ter a Deus, a nossa única esperança, eliminando os sofrimentos que presentemente vivemos. A intensidade da queixa surge da intensidade da fé. Não contém maldições, não tem amargura odiosa, não contém mentiras, menosprezo, nem depreciação hostil, nem blasfémias. Os Salmistas perturbam-se porque eles sabem e confiam que Deus é bom, porque O amam num esforço para reconciliar as Suas promessas com a dor actual.[6] Os Salmistas movem-se em direcção a Deus com uma fé honesta, lutando com as suas circunstâncias. Mas as pessoas iradas contra Deus empurram-n’O para longe de si. Os Salmistas querem a glória de Deus e querem que o mal desapareça; eles gemem e lamentam-se na sua fé. E tipicamente (também ignorado pela terapêutica falsa), eles manifestam uma consciência de culpa e pecado; reconhecem que o sofrimento em geral é, de certa forma, merecido. Esta é uma preocupação que coexiste com o ódio ao mal, intencionado por aqueles que afligem. Quando a Bíblia nos ensina a forma de manifestarmos nossa angústia a Deus, ela ensina um brado de fé, não um rugido de raiva blasfema. A alternativa terapêutica é demasiadamente distorcida para poder ensinar às pessoas aflitas, como e por que se devem queixar a um Deus a quem amam.

Quarto, a noção de perdoar a Deus é uma blasfémia final numa corrente de blasfémias. Certamente que a pessoa que realmente trata da ira contra Deus em arrependimento e fé, não irá mais sentir ira contra Deus. Sente, sim, uma gratidão imensa (outra coisa que falta na simulação terapêutica) porque encontrou perdão, não porque concedeu perdão. Deus é bom. Ele não precisa do nosso perdão. Ele nunca se assenta no banco dos réus seja qual for a vontade que tenha a nossa ira pecaminosa, em colocá-LO ali. Com quem começa o perdão de forma que um confiante relacionamento entre o homem e Deus possa ser reconstruído? Connosco? Impossível. A simulação terapêutica considera este ponto, tal como os outros, de maneira fatalmente errada.

Os Salmos e Jó não fornecem apoio bíblico para estas ideias triviais e distorcidas. Mesmo Jó, um homem piedoso e com uma fé honesta, se arrependeu no final de seu corolário de auto- retidão. Na medida em que ele censurou Deus e procurou justificar-se, ele foi levado a admitir que estava errado. É disto que o livro trata. Os Salmos, quando lidos em toda sua inteireza, não afirmam aquilo que supostamente querem indicar aqueles que isolam textos de seus contextos, com o propósito de suportar ideias falsas.

A cada passo, a fórmula terapêutica do mundo é torcida para um só sentido: manter o homem no trono do seu orgulho. Esta terapêutica simulada justifica a ira como neutra, acusa Deus de ser mau, fomenta a hostilidade e, finalmente “perdoa” ao grande Ofensor. Isto revela a superficialidade do raciocínio moral. Uma superficialidade até mesmo na formulação do problema do mal (que dirá, lutar contra ele), e uma superficialidade em analisar a Escritura. Isto, devia provocar a ira dos Cristãos![7]

A pessoa que é honesta sobre a sua ira com Deus – e entende a verdade sobre ela – irá seguir um caminho muito diferente daquele prescrito pela fórmula popular. O coração arrependido e crente não irá conformar-se com uma trégua constrangedora, entre os meus sofrimentos passados e a minha vontade presente de tolerar algum tipo de relacionamento com um Deus que me desiludiu. O coração crente irá encontrar verdade, alegria, esperança e amor inefável. O coração crente irá encontrar Deus.

Mentira #3: O meu grande problema é a ira contra mim mesmo.

Muitos dos problemas que acabámos de discutir reaparecem em noções correntes de auto-perdão. Se eu estou encolerizado comigo mesmo – e o fenómeno é comum – o senso comum actual argumenta que eu preciso, principalmente, de me perdoar a mim próprio.[8] Normalmente pensa-se que duas verdades motivam a “ira contra si mesmo”, para o “perdão de si mesmo”. Primeiro, a idéia de que “Deus não cria lixo e como Ele me criou, devo ter algum valor”. Segundo, “Jesus achou que eu tinha tanto valor que Ele me amou e veio para morrer por mim”. Com base nestas afirmações posso sentir-me positivo para comigo mesmo e observar os meus fracassos de forma mais tolerante. Resultado final? “Perdoo-me”, em vez de sentir-me encolerizado contra mim mesmo.[9] Isto parece plausível para muitas pessoas. Mas estão totalmente equivocadas.

Porque é que as pessoas se iram contra elas próprias? Primeiro, invariavelmente porque elas fracassaram em viver à altura de um certo padrão de vida idealizado. A ira consiste nisso, um julgamento contra o erro percebido. Esse padrão pode ser fictício – como ter uma casa que pareça com as da revista House Beautiful; conseguir sempre as notas mais altas; ser capaz de agradar a pais difíceis de serem agradados; ter um tempo devocional como “manda a regra”. Ou, por outro lado, o padrão pode ser legítimo – como não cometer adultério, não fazer um aborto, não ser preguiçoso. Em qualquer caso, existe um padrão de vida que eu acredito que devo conseguir vivê-lo. Eu quero viver desse modo. Mas fracasso. Esta é a primeira peça de julgamento na minha maneira de entender.

Segundo, a ira implica sempre um juiz, porque eles são aqueles que fazem julgamentos. Na metáfora do Antigo Testamento, algo pode ser desagradável quer “aos meus olhos”, quer “aos seus olhos”, quer “aos olhos do Senhor”.De quem são os olhos que me julgam quando estou irado comigo mesmo? Os meus próprios. Eu avalio, e o meu julgamento é final. É por isto que os que se odeiam a si mesmos nunca obtêm muita satisfação com as tentativas bem-intencionadas de se ajudarem a crer no perdão de Deus em Cristo. Eles podem “já haver crido” que Deus lhes perdoou pela casa desarrumada, ou pelo aborto praticado, mas isso não é suficiente: não consigo perdoar-me a mim próprio”. E os meus olhos se tornam cabalmente importantes, mais significantes do que os próprios olhos de Deus.

Vale a pena referir que, frequentemente, as pessoas que não “conseguem perdoar-se a si mesmas” servem tanto aos seus próprios olhos como aos olhos dos outros. Eu quero que a minha casa pareça impecável para agradar-me a mim mesmo (por isso fico aborrecida quando falho) e para agradar ou impressionar a minha mãe e vizinhos. Detesto-me quando a minha casa está desarrumada. Fracassei em todos os aspectos, deixando de agradar-me, a mim e aos outros. Ou eu tenho padrões legítimos (aborto) mas vejo as coisas de maneira errada. Aos meus olhos eu “não consigo perdoar-me a mim mesmo” por ter feito um aborto. Como é que eu pude fazer isso? Eu tenho que fazer alguma coisa para compensar o meu erro, ou então tenho que sofrer por ele. Isto é fazer-se um alto conceito de si próprio sob todos os aspectos da transacção inter-pessoal: Eu, simultaneamente, sou juiz, criminoso e salvador e não conheço nada da integridade de Cristo, que faz com que o Novo Testamento cante exuberante. Normalmente os olhos dos outros exercem, mais uma vez, uma função paralela à dos meus próprios olhos: “Sinto-me envergonhado por alguém conhecer o que se passou sobre o aborto. Podem pensar mal de mim”. A Bíblia denomina isto como o temor do homem, pois substitui o temor do Senhor pela opinião social. Os olhos perante os quais vivem as pessoas que se odeiam a si mesmas são, muitas vezes, uma mistura daquilo que a Bíblia chama de orgulho pessoal e de temor do homem.

Em terceiro lugar, no momento em que eu idealizo uma prática padrão de vida para mim mesmo e estabeleço quais os olhos que me julgam, crio, ao mesmo tempo, a minha definição de um “salvador”. Para compensar o meu fracasso em preencher os meus próprios padrões (ou os padrões dos outros), posso então esforçar-me e ocupar-me por atingir a perfeição. Trabalho duas vezes mais na limpeza da casa. Abro a minha casa a mães solteiras e, compulsivamente, coopero no movimento pró vida. Mas isso não funciona. A casa continua desarrumada e, não obstante quão boa eu possa ser, o aborto ainda macula o meu passado. Então decido tentar manter minha função de salvador, por reconstruir um recorde perfeito que (se eu pudesse fazê-lo) melhoraria tudo. Mas fracasso. Por isso a auto-aversão tem sempre a última palavra. Continuo interminavelmente a aplicar minha própria punição, fazendo em um só, a função de juiz e de cordeiro imolado. Lacero-me mentalmente. Cismo sobre as meus pesares, auto-recriminações, auto-aversão, acusando-me a mim mesmo impiedosamente pelas minhas transgressões (imaginárias ou reais). Estou encolerizado comigo mesmo. Não consigo perdoar-me.

O aconselhamento bíblico deve abordar tais pessoas em três pontos diferentes: padrões de práticas de vida, “olhos” e salvadores. Elas vivem numa abrangente simulação da realidade bíblica e por isso estão tão confusas e infelizes. Apenas a verdade pode trazer-lhes sabedoria e alegria. A sua meta como Conselheiro, é a de redefinir a realidade em que essas pessoas vivem, para demonstrar como a vida pode ser transformada pela renovação da mente.

Primeiro, procure ver se os padrões que as pessoas usam para se julgarem são os de Deus, os seus próprios ou aqueles padrões que elas copiaram, ou emprestaram, de outras pessoas (tais como a mãe e os vizinhos). Por vezes, os padrões serão legítimos; muitas vezes os padrões serão distorcidos e podem ser desafiados e mudados à luz da verdade.

Segundo, quais os olhos que são mais importantes? Qual a aprovação que tem real valor? Viver perante os meus próprios olhos consiste em substituir Deus por minha consciência. Este é um ato de orgulho. Viver perante os olhos dos outros – para a sua aprovação – consiste em substituir a avaliação de Deus pela avaliação dos outros. Este é um ato de temor do homem. Viver sob o julgamento dos olhos de Deus consiste no princípio da sabedoria. Aquele que, odiando a si mesmo chega a despertar-se para isto, desperta-se para a realidade. Torna-se consciente de pecados que nunca antes tinha suspeitado e da sua necessidade real do perdão.

Terceiro, quem é o Salvador proposto para todo este caos e miséria? A pessoa busca, em seus próprios esforços descobrir uma forma de perfeição? Castiga-se a si própria pela culpa dos seus fracassos percebidos? Apenas Jesus Cristo concede a perfeição. Apenas ele pode carregar a culpa sobre Si. Ele pode perdoar os muitos pecados que estão presentes na vida: transgressões genuínas (adultério, aborto, preguiça), a confiança e fé em falsos padrões (Revista Casa Linda - House Beautiful), a escolha de viver para os olhos, outros que não os de Deus (meus e da minha mãe), e a busca de conseguir a retidão por seus próprios esforços, como um falso auto-salvador. Jesus concede a verdadeira justificação – a Sua própria vida perfeita – àqueles que pecam. Ele concede o perdão real – o perfeito sacrifício de Si próprio para levar sobre Si o nosso castigo – aqueles que pecamos. Ele concede poder interior – o Seu Espírito Santo – para renovar as nossas mentes, dar-nos alegria e transformar-nos. Que alívio, dos esquemas sufocantes, da auto-absorção em buscar perdão em nós mesmos!

As pessoas que se odeiam a si próprias descobrem que os seus problemas se resolvem à medida que elas avançam através deste processo. Não existem incoerências na amorosa verdade de Deus. Viver para a Casa Linda (House Beutiful) me fará recair num cenário nervoso, tolo, do qual Deus me libertou de forma tão deleitosa. O aborto foi verdadeiramente perdoado, não porque eu tenha feito correções ou me tenha punido a mim mesmo, mas porque Jesus amou um pecador. O orgulho e o temor do homem que elevava aos outros e a mim próprio para o banco do juiz, são substituídos pelo temor do Senhor que é o princípio da sabedoria. O perfecionismo legalista dos meus esforços para o sucesso, e a auto-punição da minha ira contra mim mesmo, são substituídos por gratidão pela graça de Deus. Caso encerrado, já não mais “irado comigo mesmo” e nem mais um sopro sequer do sentimento de que “preciso de me perdoar a mim mesmo”.

A propósito, repare a forma como a análise falsa (ira contra si mesmo? Perdoe-se a si mesmo?) levam a um falso evangelho, tal como aconteceu quando considerámos a ira contra Deus. No cenário bíblico, não existe alusão de que “Você é tão valioso devido à criação”, ou ao, “amor de Jesus mostra quão alto valor você tem, assim que você pode sentir-se bem consigo mesmo”. A verdade é que a criação e a redenção não nos dão muita razão para nos sentirmos satisfeitos conosco mesmos. A nossa criação foi feita à imagem do Deus de glória. No entanto veja-se quão profunda tem sido a nossa queda: “… que também o coração dos filhos dos homens está cheio de maldades; que há desvarios no seu coração, na sua vida”.[10] Um simples olhar honesto para a nossa glória na criação, “calam-se todas as bocas ... porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus.” De modo similar, a nossa redenção foi ganha de uma forma que nos revela como totalmente maus e vulneráveis somos. O único Homem bom e de valor verdadeiro, morreu gratuitamente para salvar aos ímpios, débeis, inimigos pecadores. Estes fatos dificilmente dão motivo para uma confiante auto-aceitação ou um confiante auto-perdão! A Graça, por definição, destrói o auto-merecimento. O orgulho encoberto que existe na “baixa auto-estima” e na “cólera contra mim próprio” não é curado por enganosamente afirmar-me como sendo de valor. O evangelho bíblico nos aponta para o mérito de Jesus Cristo que redimiu os que não tinham valor intrínseco e que estavam merecidamente condenados. Quão melhor é o verdadeiro evangelho, que define a nossa necessidade de perdão de Deus (e não de nós próprios), e o provê gratuitamente e completo. Os que abraçam a graça de Deus tornam-se verdadeiramente felizes, livres da necessidade de escoras para seus auto-conceitos bamboleantes. O conhecimento preciso, bíblico, de si próprio, destrói a suposta necessidade de auto-estima. Produz o único povo do planeta com razões para abordarem a vida confiantemente.

A ideia de se perdoar a si mesmo para resolver a ira contra si próprio é conivente com um pecado central: manter as pessoas a viver perante os olhos errados – os seus próprios. “Eu sinto raiva de mim; preciso de me perdoar.”Esse armário psíquico asfixiante, é um grito que em nada se assemelha ao mundo real, para o qual a Bíblia nos liberta a fim de vivermos nele. Por exemplo, em 1 Coríntios 4:3-5, Paulo afirma que não importa aquilo que os outros pensem dele: “Todavia, a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vos, ou por algum juízo humano”. Ele não vivia aos olhos dos outros. Depois afirma que não se importava com o que ele pensasse dele próprio: “nem eu tampouco a mim mesmo me julgo. Porque em nada me sinto culpado; mas nem por isso me considero justificado”. Ele não vivia para os seus próprios olhos. Finalmente, diz, “Pois quem me julga é o Senhor”, e continua a discutir o que significa viver para os olhos de Deus. A minha opinião de mim mesmo (“consciência”) e a sua opinião sobre mim (“reputação”) não importam, a menos que concordem com a opinião que Deus tem de mim. Tais opiniões são extremamente valiosas quando permanecem no seu lugar; mas são tiranas quando usurpam ao trono de Deus.

A ira contra si mesmo, tal como a ira contra Deus, chega a uma resolução rica e satisfatória quando entendida de forma correta e quando o Evangelho é aplicado. As falsificações que são frequentemente oferecidas às pessoas atribuladas, são suficientes para fazerem com que os Cristãos chorem de tristeza e ira!

Um caminho para sair da ira

Agora vamos mover-nos numa direcção positiva. Como é que podemos tomar os ensinamentos bíblicos sobre ira para ajudar-nos a mudar? Esta é a pergunta compensadora. Tudo que viemos olhando até agora pode ser resumido em oito perguntas muito práticas. As primeiras quatro perguntas ajudam a avaliar a ira; as restantes conduzem à sua resolução.[11]

Vou usar um exemplo de uma situação simples que nos tenta a muitos de nós (todos nós?). Você está num engarrafamento de trânsito e está com pressa por já se encontrar atrasado para um encontro. Faltam cinco minutos para o meio-dia. O encontro é ao meio dia. Você está preso na estrada a dezesseis quilómetros de distância, num tráfego que não se moveu durante vinte minutos e que não mostra sinais de se resolver. Uma resposta comum? Você resmunga – com ira, frustração, desgosto, consternação, infelicidade, tensão. Quando isto acontece, faça a si mesmo estas perguntas.

Pergunta #1: Qual é a situação?

Esta pergunta é fácil. Qual é a situação provocadora? A ira é provocada, algo a propulsiona, acontece por motivos em tempos e lugares específicos. O que está acontecendo com você? “Eu não estava sendo tentado à ira antes de ter ficado preso no trânsito, e o relógio estava quase no meio-dia e eu sabia que ia atrasar-me para o meu encontro”. A situação inclui: o Departamento de Transportes que decidiu realizar trabalhos na Estrada nesse exato momento, o tráfego, a hora, o encontro, a reação possível da pessoa que espera por você, e assim por diante …

Pergunta #2: Como reajo?

Esta pergunta é também relativamente fácil. Destina-se a ajudar a identificar as formas específicas de como você exprime sua ira pecaminosa. O que acontece no seu pensamento? Mentalmente amaldiçoa o departamento de transportes. Imagina cenários mentais ansiosos sobre a forma como apresentar desculpas à pessoa que você deixou na mão a sua espera. Talvez comece a auto-recriminação: “Porque é que não saí mais cedo ou porque não escolhi outro caminho ou porque não ouvi o rádio sobre a situação do tráfego? O que acontece se a pessoa com a qual tenho que me encontrar ficar desgostosa comigo?” Onde está Deus no meio disto tudo? Talvez eu tenha amaldiçoado, invocando a Sua ira para servir as minhas frustrações. Talvez eu tenha tido um pensamento fugaz de que “Eu devia… ou, eu não devia...” mas isso não ajuda a abrandar a situação. Talvez eu tenha dirigido pensamentos coléricos contra Deus, “o Cristianismo não funciona; Deus é uma farsa; oh esqueça… joga isso pro lado …”

Corpo e emoções? Sinto-me encolerizado, irritado, quente. Quanto mais tempo assento aqui, mais me esquentam as orelhas. Sinto-me tenso. Sinto um aperto na nuca. O estômago está embrulhado. Ansiedade por perder a reunião.

Ações? Aproximo-me do pára-choques do carro da frente e não deixo ninguém introduzir-se pelos lados. Bato com o punho no painel. Resmungos, suspiros, sibilos. Desabafo o meu desapontamento, “Não posso acreditar! Isto é ridículo! De todas …” Liga e desliga o rádio agressivamente. Um gesto ou frase obscena. Conduz o carro como um maníaco logo que o tráfego melhora. Uma explosão semi-coerente de ira e desculpas para quando, finalmente, chegue ao encontro.

Este ensopado de ira (com algum receio) é uma reação humana clássica das “obras da carne”.

Pergunta #3: Quais são os meus motivos?

Estou a resmungar e a queixar-me, portanto, algum conjunto de ansiedade e de falsas crenças devem estar a comandar-me. Faça perguntas básicas: O que é que eu realmente quero? Em que creio na realidade? A ira sai do meu coração; não é causada pela situação.[12] Eis a seguir alguns possíveis poderes que regulam o coração:

Quando estes desejos (clássica “concupiscência da carne”) e credulidades falsas governam a minha vida, eles produzem a ira pecaminosa e injusta. Se Deus governasse a minha vida, estas afeções naturais estariam subordinadas. Poderia sentir algum desapontamento, mas não estaria chafurdando no pântano.

Pergunta #4: Quais são as consequências?

A ira tem consequências. Ela cria círculos retroactivos, círculos viciosos. Talvez se os motoristas se introduzissem agressivamente, e eu, para evitar que entrassem, batesse no carro à minha frente e tivesse então que suportar a hostilidade do motorista em cujo carro bati, e ainda uma multa de 250 dólares para deduzir no meu seguro por colisões. Talvez eu viesse a sofrer consequências emocionais e físicas: culpa, aflição crescente e tensão, dor de estômago e dores de cabeça. Por vezes as consequências são fatais: o gesto obsceno pode provocar a pessoa provocada a disparar uma arma. Talvez, quando finalmente eu chegar ao meu encontro, já esteja tão exaltado, aborrecido, agitado e tão cheio de desculpas que provoco uma péssima impressão e perco a venda (ou a namorada). Talvez a forma imatura como eu atuo venha a destruir minha reputação junto de todo o pessoal do consultório médico, e lhe proporcione vinte minutos de humor sarcástico nas minhas costas. “O meu dia está arruinado”.

As primeiras quatro perguntas identificaram e dissecaram a reação de ira. Elas indicaram a provocação específica, a mistura detalhada de reações, os motivos subjacentes e as consequências. Já observámos, mesmo neste pequeno incidente, os círculos viciosos que definem “pecado e miséria”. As próximas quatro perguntas caminham no sentido da resolução bíblica pela graça do Deus, que tem estado a observar de perto tudo o que estava a acontecer durante todo o tempo.

Pergunta #5: O que é verdade?

Quem é Deus? O que é que Ele diz? Muitos temas e verdades bíblicas podem ser significativos, mas eu irei concentrar-se em três que são sempre importantes quando se trata de ira. Primeiro, Deus está presente e no controle desta e de qualquer outra situação. A soberania de Deus circunda as coisas que eu enfrento na Pergunta #1. Eu não existo para controlar o mundo, mas isso não significa que o mundo é aleatório e está fora de controle. Você irá resolver a ira pecadora na medida em que aprender a crer que Deus é extremamente relevante quando eu estou parado e atrasado no tráfego. Como Seu filho que sou, Ele está presente e Ele está preparando algo de bom na minha vida. O objectivo preponderante de Deus em minha vida consiste em me refazer à imagem de Jesus Cristo; em me fazer uma pessoa longânime e cheia de confiança, em fazer de mim um pessoa que promove a paz e não o conflito. Eu não gosto do facto da minha reunião ter sido cancelada, mas Deus ofereceu-me uma perfeita oportunidade de me tornar alguém diferente”.

Segundo, a lei de Deus nos fala de eventos como este. A lei actua de duas formas: como um espelho e como uma luz. Primeiro, Deus coloca um espelho diante de mim: “Amarás, pois, ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças” e, “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Este primeiro grande mandamento revela o meu coração: O que é que eu amei em vez de amar a Deus? Fiquei incomodado porque amei à minha própria vontade, a aprovação humana, o dinheiro (ou saúde, ou amor). Este mandamento diagnostica as coisas que eu descobri sobre mim mesmo na Pergunta #3. De facto, ensinou-me a fazer todos esses tipos de perguntas! O segundo grande mandamento revela meus frutos. Quais as obras da carne que emergiram dos desejos carnais? As reacções pecaminosas da Pergunta #2 estão expostas pelo que elas são. Até sou ensinado sobre o tipo de coisas que devo procurar pela infinidade de exemplos bíblicos e preceitos que iluminam este mandamento.[13]

Deus também tem a lei como uma luz para guiar-me. O primeiro grande mandamento diz-me para amar a (e confiar, temer, ter esperança, voltar-me para …) Deus. Eu posso confiar na Sua provisão financeira para mim (ou de saúde, ou de amizade / casamento) em vez de cobiçar após essas coisas. Posso amá-l’O por trazer a claridade e o sentido da sabedoria numa situação que era, antes, um atoleiro emocional. Diz-me como encontrar e conhecer Deus (Pergunta #6, a seguir).

O segundo grande mandamento fala positivamente da consideração pelos interesses dos outros. Como é que isso se aplica? Eu poderia ser caridoso quanto ao tráfego que busca intercalar-se, e permitir que alguém entre na fila. Talvez a cortesia me tivesse feito telefonar (se possível) para dar conhecimento da situação à pessoa que me esperava. Este mandamento fala de paciência e de numerosos outros bons frutos que se aplicarão em diferentes situações da vida. Faz-me lembrar de dizer a verdade quando eu conto às pessoas o que aconteceu. Desafia-me a adquirir a sabedoria que preciso para aplicar a vontade de Deus nesta situação exacta – às 11:55 da manhã, quando estava emperrado no tráfego e atrasado para uma reunião (Pergunta #7, abaixo).

Terceiro, a verdade de Deus fala do evangelho. Tenho-me condenado culpado por violar o primeiro e segundo grandes mandamentos neste pequeno incidente na rodovia. São pecados. E o evangelho é a ponte que liga entre a lei, como um espelho, e a lei como uma luz, entre o caos do pecado e o gozo da sabedoria. O evangelho perdoa pecados, restaura-me para com Deus, provê-me poder para ser diferente e dá-me uma esperança maior do que os desapontamentos da vida. Deus é o meu socorro bem presente na angústia, e pode dar-me a graça de agir pacificamente e de forma caridosa enquanto saio de um engarrafamento de tráfego. Posso reconhecer e alegrar-me de novo na dádiva inexpressável do amor de Deus.

Pergunta #6: Como posso voltar-me a Deus para receber ajuda? Faça-o.

A pergunta #5 expôs a cosmovisão em que os problemas, agora, fazem sentido. Deus é revelado e a maneira de escapar da insensatez para a sabedoria, torna-se clara. A simples análise, no entanto, e mesmo o pensamento mais nítido (algo que as Perguntas #1-5 procuram levantar), não me mudarão. A Pergunta # 6 força-me a mover-me. Deus propõe que O busque, que transacione com Ele. Preciso de aplicar as verdades da Pergunta #5, por exemplo, analisando as perguntas que distinguem a ira justa da ira pecaminosa. Não é difícil afirmar que a minha ira falha o primeiro teste de ira justa[14]: esta confusão de tráfego não é um mal moral que necessite das energias da ira. A minha ira injusta reivindica essa mentira porque eu servi os falsos deuses identificados na Pergunta # 3. Preciso arrepender-me, mudando-me dos desejos e obras da carne para o Senhor da vida. Preciso de confessar os meus pecados, pedir perdão, crer no evangelho, pedir por sabedoria que me ensine como responder e me dê forças para o fazer. Os resultados disto tudo serão a de “regressar à minha clareza mental”. Conhecerei a gratidão genuína a Deus e o contentamento (mesmo na confusão do tráfego, e não menos) que era inconcebível quando ainda estava mergulhado nos meus pecados. – “Obrigado, Deus, por quem és, pela bondade do Teu evangelho que veio a meu encontro no momento da minha necessidade!” “Bem-aventurado o homem que acha sabedoria … Mais preciosa do que os rubis, e tudo o que podes não pode se comparar a ela” (Provérbios 3:13, 15). Estou a vivenciar a bênção de querer mais a sabedoria do que de impressionar pessoas ou de conseguir dinheiro ou as outras coisas que me desnorteiam.

Pergunta #7: Como devo responder a esta situação de forma a glorificar a Deus? Faça-o.

O arrependimento e a fé conduzem a mudanças concretas em comportamento, emoção, pensamentos. A retidão é tão específica como os pecados descritos na Pergunta #2. Ao nível mais simples, posso respirar profundamente e relaxar-me confiando que Deus está realmente no controle. Mas Deus também tem outros resultados em mente. Torno-me em um condutor caridoso e cortês. O que é que importa se tenho uma distância de dois carros a mais? Deixarei entrar um par de carros. Deus libertou-me tanto dos aspectos hostis como competitivos da ira pecaminosa. A confusão do tráfego já não é uma briga de cães. Eu ofereço meu agradecimento a Deus. Planejo o que direi à pessoa com quem tenho o compromisso: não um pedido de desculpas ansioso ou de irritação explosiva, mas os simples factos e uma preocupação pelo seu bem-estar. Planificarei as desculpas pela inconveniência. (Não vou pedir perdão, isso é para quando eu peco contra alguém; desculpas são para acidentes. Se eu me tivesse atrasado quinze minutos em primeiro lugar, então, um pedido de perdão pela minha falta de consideração seria devido). Que alegria estar livre do caos emocional do pecado. Em vez dessa mistura de raiva, ansiedade, confusão e frustração, sinto-me em paz; com a agradecida paz “que excede todo o entendimento” e “o segredo do contentamento” que provêm do viver à luz do evangelho. A Pergunta #7 trata de todos os aspectos da situação descrita na Pergunta #1 e demonstra a vontade de Deus com seus detalhes, em meu viver em meio ao mundo ao meu redor.

Pergunta #8: Quais são as consequências da fé e da obediência?

Já mencionámos alguns dos benefícios subjectivos. De forma mais objectiva talvez se tenha prevenido um pára-choques amassado ou, até mesmo, um crime fora evitado. Alguém mais foi poupado de cair na mesma ira pecaminosa, ou de um crime cometido por minha causa. E no meu canto do mundo, para a meia dúzia de carros à minha volta, talvez a minha cortesia e resposta calma, se tenham provado cativantes. A piedade cria ondas em graciosos círculos. Aqui completamos um círculo e descobrimos que a piedade, embora não garanta mudar a situação original, com frequência, tem um efeito benéfico para o mundo. Talvez eu termine, de fato, realizando de qualquer forma, porque o gerente ficou tão impressionado com a calma e sensatez como resolvi uma situação frustrante. Já tinha visto muitos outros vendedores chegarem com inúmeras desculpas, e com argumentos veementes. A piedade intrigou-o e atraiu-o.

As possibilidades para as muitas bênçãos multifacetadas de Deus são infinitas. Em vez de ter o meu dia arruinado, Deus arrancou-me do pecado e da desgraça e este é, talvez, um dos dias mais significativos da minha vida do ponto vista do crescimento à imagem de Cristo. Aprendi a forma como a vida funciona no mundo de Deus. Aprendi a forma como funciona o evangelho. Aprendi lições profundas num canto ainda que muito pequeno da vida. E (quem sabe?) quando nessa noite eu fale ao telefone com um amigo atribulado, eu seja capaz de “Consolar aqueles que estiverem em tribulação, com a consolação com que eu mesmo sou consolado de Deus.” (2 Coríntios 1:4). Não sofri muito – a inconveniência de um engarrafamento de trânsito – e talvez ele ou ela estejam sofrendo muito mais. Mas a dinâmica do coração humano é idêntica: eu irei compreender as tentações do meu amigo à ira, medo e desespero porque já entendi as minhas próprias tentações. E vim a entender a forma do escape. Atravessando tudo isto, não somente tenho sido abençoado, mas a experiência serviu para fazer-me capazmente sábio para aconselhar a outros.

Um engarrafamento no tráfego – apenas um pequeno caso para estudo. Algumas pessoas podem perguntar, “O que é que tem isto a ver com as aflições mais importantes e maiores provocações para a ira?” Da maneira como a Bíblia analisa os factos, isto tem tudo a ver com elas. As mesmas verdades sobre Deus aplicam-se da mesma forma. Na verdade, muitos pormenores serão diferentes. E a Bíblia é franca: existem lágrimas que não se enxugarão e inimigos que não se apartarão do nosso caminho até ao último dia. A Pergunta #8 não cria o céu na terra. Mas cria sabores do céu, mesmo embora o último inimigo ainda não tenha sido colocado debaixo dos pés de Cristo. Se no dia em que eu ver a Cristo serei completamente como ele é, então, de certa forma, estarei provando a alegria do céu num engarrafamento de trânsito, por haver sido feito um pouco mais como Ele é. Estas oito perguntas orientam-nos para a realidade Cristã, o que equivale dizer, que elas nos orientam para a realidade! Elas ensinam-nos o nosso mundo, sobre nós próprios, sobre o nosso Deus, e como viver. As pessoas a quem Deus ensina como lidarem com o engarrafamento do trânsito, serão ensinadas por Ele sobre como lidarem com qualquer coisa.

[A Parte 3 deste artigo, “Ajudando Pessoas Iradas”, irá focar o processo de oferecer aconselhamento a tais pessoas. Será publicada na próxima edição de The Journal of Biblical Counseling (O Jornal de Aconselhamento Bíblico), se Deus permitir. Não é interessante como essa última frase pode manter, de igual maneira, leitores, autor e editores protegidos da ira pecaminosa e injusta, se por acaso algo interferir com estes planos!]


Referências

  1. “Entendendo a ira,” Journal of Biblical Counseling, 14:1 (Outono 1995), pp. 40-53.
  2. Isto não quer dizer que a catarse não faça com que as pessoas se “sintam melhor”. Muitas coisas fazem com que as pessoas iradas se sintam temporariamente melhor apesar de não fornecerem solução real para problemas morais: por exemplo, medicamentos calmantes, deixar de comer comida industrializada e prejudicial, orgasmo, dormir, ver TV, bisbilhotar a sua história para colocar as pessoas a seu favor, gritar e bater em coisas, fazer exercício na academia, passear nas Bermudas. Essas coisas muitas vezes afastam a nervosismo, mas não modificam o coração.
  3. Veja a minha obra Power Encounters: Reclaiming Spiritual Warfare (Encontros de Poderes: Recuperando o Combate Espiritual) (Grand Rapids: Baker Books, 1995) para uma crítica mais ampla da noção dos demónios da ira.
  4. ↑ Talvez de forma mais viva na hostilidade sustentada em relação a Jesus Cristo, o Filho de Deus e perante os precursores e mensageiros de Deus que O precederam e O seguiram (especialmente Davi, Jeremias, João Batista e Paulo). As murmurações no deserto demonstraram ira expressa contra Deus. Em Provérbios 19:3 o homem estulto “ira-se” contra o Senhor. Em Apocalipse 16 ele afirma três vezes que os homens “proferem blasfémias contra Deus” em vez de se arrependerem.
  5. Cito um cenário que representa o pior caso. Muitas pessoas que sentem ira contra Deus, sofreram dificuldades mais amenas : desapontamento no amor, um revés financeiro, a morte de um pai idoso, uma proposta rejeitada numa reunião de um comité da igreja. Tenho-me abismado com o facto de que as pessoas que se sentem encolerizados com Deus, hajam, tipicamente, sofrido exactamente os mesmos problemas das pessoas que amam a Deus!
  6. Fora dos Salmos, Habacuque faz o mesmo de forma mais pungente.
  7. Certamente passando o primeiro teste da ira justa, ficando perturbado com coisas que magoam pessoas e difamam Deus. Essa ira também vai passar os outros testes (ver Parte 1 deste artigo) se nós amarmos Deus e amarmos as pessoas que estão encolerizadas contra Deus, desejando dar-lhes uma ajuda verdadeira em vez de dizer-lhes mentiras.
  8. Veja o bom artigo de Robert Jones, “Não Consigo Perdoar-me a Mim Próprio: Uma Alternativa Bíblica para o Auto-perdão” que se encontra neste número do Journal of Biblical Counseling.
  9. É provavelmente mais verdadeiro que o objectivo terapêutico seja realmente “aceitar-me a mim próprio como estando basicamente correto, embora com algumas insuficiências como toda a gente”, e não o de “me perdoar a mim próprio”. O perdão implica que algo estava tão errado que “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hebreus 9:22). O ensino do auto-perdão habita o mundo da auto-aceitação humanística, não do perdão Cristão. O mundo do auto-perdão é um mundo em que seu deus se apresenta como o avô tolerante e secularmente sábio. Deus é um Pai amoroso com coisas melhores na mente para os Seus filhos!
  10. Eclesiastes 9:3; ver outras análises da condição moral humana tais como Gênesis 6:5, Jeremias 17:9 e Romanos 3.
  11. Este contexto básico aplica-se a outros problemas ademais da ira. Trata-se simplesmente de um resumo do padrão bíblico de transformação.
  12. Afinal, se eu realmente tivesse querido evitar o encontro, teria ficado encantado por estar preso no trânsito, pois isso seria uma bela desculpa! A felicidade pecadora é um problema para o qual as pessoas raramente buscam conselho. A Bíblia está cheia de exemplos de pessoas que se rejubilam quando conseguem obter aquilo que os seus corações maldosos desejam (por exemplo, Salmo 73:3-12; Jeremias 50:11; Habacuque 1:15; Lucas 6:24-26 e 16:19, 25; Apocalipse 11:10).
  13. Naturalmente que a Bíblia não precisa nem pretende listar cada detalhe isoladamente. Ela ensina-nos a forma como se apresenta o pecado da ira e dá-nos numerosos exemplos, tornando-nos conhecedores para discernirmos outros exemplos. Por exemplo, eu não preciso de um texto de prova para saber que o acto de “comprar a revista Penthouse e masturbar-me como um acesso de ira contra Deus” exprime o pecado da ira. Essa análise está implícita em “As obras da carne são manifestas [dá 15 exemplos...] e coisas semelhantes a estas” (Gálatas 5:19-21). Essa passagem e outras dão-nos variações suficientes sobre o tema da ira para nos capacitarem a entender o quadro total. As escrituras orientam-nos à realidade, ensinando-nos a forma de observar e pensar sobre o nosso mundo com exactidão.
    Por vezes a opinião de que a Escritura é “suficiente” para o aconselhamento é caricaturada por opositores como se isso signifique que as Escrituras contêm todos os fatos com os quais o aconselhamento trabalha. Esta é uma opinião absurda que nenhuma pessoa susteve na história do mundo. Em vez disso, a Escritura é suficiente para interpretar todos os fatos com os quais o aconselhamento trabalha. Se a Escritura fosse exaustivamente enciclopédica, nem mesmo perguntaríamos a uma pessoa o seu nome, e já conheceríamos os detalhes da sua vida! Mas as categorias bíblicas irão planificar aqueles detalhes idiossincráticos – suficientemente, perfeitamente e sabiamente.
  14. Veja a primeira parte deste artigo, “Compreendendo a ira”, Journal of Biblical Counseling, 14:1 (Outono, 1995), pp. 40-53.